Natal, é?
Dois mil e oito? Hein? Quê isso?
Não é que esse país permita que qualquer pessoa se esqueça do natal. Impossível. “We wish you a merry christmas”, “jingle bells”, “white christmas” e todas as outras tocam, o dia todo, em todos os lugares, em todas as versões já gravadas. Ainda vão provar cientificamente que essas músicas têm mensagens subliminares incentivando o consumo, apenas perceptíveis pelo nosso subconsciente. Extremamente eficientes.
Não é que faltem luzinhas, filmes natalinos, neve na TV, bons velhinhos, cheiro de canela, decorações mil, vermelho e verde... não é por ausência de nada material. É mesmo o mosquitinho do natal que não me picou esse ano. O do ano novo muito menos, o que me parece mais estranho ainda. Sabe, eu geralmente sou a maníaca do ano novo. Das resoluções e metas escritas e elencadas impreterivelmente até o dia 31, dos balanços de prós e contras, das retrospectivas, das superstições, das crenças. Aquela que pesquisa numerologia, astrologia, I ching, tarot, oráculos todos. Ano novo é coisa séria pra mim. Ao menos costumava ser.
Dessa vez, a tempestade atingiu até isso. Não deixou mesmo pedra sobre pedra. Com tanta mudança, com tanto armário e baú revirado dentro de mim, a vontade de brincar de “adeus ano velho, feliz ano novo” também não sobreviveu. Pela falta de tempo, pela falta de chão e de raiz, pela mudança de clima, oxigênio e ambiente, pela reviravolta toda. Por tudo junto e misturado, tão misturado dentro de mim. Plantas, flores precisam criar raiz, sabem? Precisam de alguma segurança.
Eu já sei que nunca mais vou ser a mesma, e não apenas pela mania já adquirida de polir talheres e dobrar guardanapos, não só pela experiência em arrastar carrinhos e carregar bandejas. “Good evening, room service!”. Eu já sei que nunca mais vou conseguir falar um “sorry” ou “hello, how are you doing?” sem cantar desse jeitinho falso americano, mas não é só isso. Eu nem sei o que é. Talvez seja tudo isso, talvez eu nunca mais consiga analisar e dissecar as minhas sensações e sentimentos como costumava fazer. Talvez daqui pra frente eu nunca mais seja capaz de me compreender, me regrar, me colocar na estante bonitinha, de perninhas cruzadas e sorriso cordial. Talvez esse maremoto interno, essa avalanche de novas sensações e paradigmas, esse tornado que se apoderou da minha casa e me impede de arrumá-la novamente, talvez essa coisa louca toda nunca mais me deixe ser a pessoa racional e equilibrada que me acostumei a ser.
Provavelmente eu ainda passe muitos anos pontuando meus textos com talvezes.