domingo, agosto 31, 2008

Plastic Surgery



Só eu sei o quanto tudo mudou. Só eu posso saber o real significado do que me foi arrancado, do peso que me foi tirado, do fardo que não mais carrego. Da mudança drástica que isso representa, do renascer que vejo e sinto, em cada célula remanescente, todo dia.

Tenho a sensação de começar tudo de novo, de ter que refazer a vida do zero. Com todos os valores repensados e sopesados sob uma perspectiva totalmente nova, com todos os hábitos, os modos, as certezas e os instintos mudados. Até eles, os instintos. Tudo tão diferente, tudo tão avesso. Tudo precisa ser revisto. Eu acho que meu andar, meu olhar, minha voz, minha visão, audição, olfato, paladar e tato, tudo deve também estar diferente, porque... porque eu simplesmente não sou mais a mesma pessoa. E me leio e penso no quanto isso realmente pode soar fútil, vazio, uma inversão de valores completa. Mas no mesmo instante tenho tanta certeza de que não é. E não é mesmo, porque o corpo, esse aqui, é sim o que nos resta de mais valioso. Templo, instrumento, porto. Negligenciar a isso, dizer que “importante na verdade é o que temos por dentro”... é hipocrisia. Mesmo porque nada que está lá dentro está “desconectado” do que se mostra aqui fora.

Eu ando pela rua e não sou mais aquela. E nem digo “não sou mais eu”, porque é essa aqui que sou, em cada parte, com todas as características, boas ou ruins. Sou essa e não quero voltar a tempo algum, sou essa e não quero apagar nada, mas também não olho pra trás. Sou essa aqui, na totalidade, mas essa aqui é alguém tão novo, alguém que se conhece pouco ainda, alguém que se sente mesmo recém-nascida. Alguém que começa do zero, e recomeçar nunca é de todo fácil.

Talvez eu já pudesse tudo. Talvez a capacidade sempre estivesse dentro de mim, talvez isso já estivesse aqui o tempo todo, só eu não vi. Mas ver muda tudo. Eu agora posso. Eu agora vou atrás, vou em frente, levanto a cabeça e os ombros, dou a cara pra baterem. E a boca pra beijarem, e as mãos pra segurarem. Eu não fico mais parada na beirada. Eu pulo. De ponta. E não sei ainda dosar isso tudo com aquilo que morava aqui antes, não sei ainda conciliar totalmente a pessoa de antes com essa mulher nova que veio morar em mim, essa que trouxe rosas vermelhas pra substituir as margaridas, que veio queimando sutiãs e cintas, que veio ouvindo lounge e trip hop ao invés de MPB, jogando no ataque e não mais na defesa. Não sei dizer pra ela se conter, ela me parece tão fascinante, ela me faz tão bem. Ela é exatamente aquilo que a menina tímida e complexada que mora dentro de mim queria ser um dia, aquilo que eu pensava que “só na próxima encarnação”. E eu ainda não sei, (vou saber logo, mas ainda não sei) como ser tudo ao mesmo tempo, como tornar isso mais equilibrado e mais saudável. Eu preciso aprender.

terça-feira, agosto 19, 2008

Pieces of me (ou "Feeling Good")



Tem vezes em que simplesmente não é pra ser. Em que a nossa capacidade de inventar amores e fantasiar romances não é suficiente pra materializar uma história, e não importa o quanto você force a barra... não vai dar certo. Não importa que você queira tentar, que você ache que é o melhor, que o mundo lá fora concorde que os prós valem os contras, que o negócio é lucrativo. Existe um momento em que todos os seus poros e células te dizem numa linguagem clara e inconteste, em que todos os seus instintos te afirmam e não há como ignorar: não dá. Ele não é ELE, não é nem um deles, nem se encaixa na categoria mais simples, nem passa naquele teste que tem os menores requisitos. Ele não é pra você e até ele sabe disso. Seria tão mais fácil se ele fosse, se ele te provocasse um mínimo de... calor. Mas não é.

A verdade é que eu precisei viver 5 dias "casada" pra constatar que não é NADA disso que eu quero. Sim, porque às vezes o entendimento real, aquela certeza absoluta, só se dá quando a gente vive, quando a gente experimenta e sente na pele. Antes disso a gente pode até dissertar acerca, dizer que entende, afirmar que sabe. Mas às vezes o saber de verdade só vem quando a gente vai lá e vive.

Não há lugar pra você na minha vida, e eu acho que mesmo que fosse outro e não você, ainda assim não haveria. Você é grande demais pro meu apartamento, seu travesseiro é grande demais pra minha cama, suas malas e roupas são grandes e muitas pra caberem no meu quarto. E sua mão é grande demais pra minha (and not in a good way), e eu sou pequena demais do seu lado, e delicada demais pra sua força desmedida e pra sua falta de jeito crônica. Fraca demais pras suas brincadeiras, pros seus tapas, beliscões e coisas de menino. You see, eu nunca tive meninos por perto quando criança, e só sei brincar de Barbie, de casinha, de escolinha, de coisas civilizadas.

Hoje quando eu cheguei em casa você não tava mais aqui. E mesmo antes de chegar o sol brilhava mais, o cheiro de produto de limpeza e a água escorrendo na escada lá de fora eram mais limpos, o ar era mais leve, porque eu sabia que a minha vida voltava pra mim.
Entrei no meu quarto e ele tava vazio, sem roupas grandes demais e malas espalhadas pelo chão, sem nada na escrivaninha, na cama ou no armário que não fosse 100% meu. E a minha TV não passa mais olimpíadas e nem fica ligada o dia todo no canal de esportes, as coisas espalhadas são todas minhas, os copos d’água pela sala são meus. A minha vida é minha e só minha, como eu sempre quis, como eu conquistei, como eu cuidadosamente e meticulosamente construí.

Hoje, antes de vestir meu avental e lavar as louças, antes de limpar a bagunça do meu cachorro, antes de refazer a cama e ajeitar o mundo de volta pro lugar, eu me sentei aqui. Pra falar desse sol de hoje que brilha mais que os outros e enche a minha casa de luz, do perfume que permeia o ar, do som do Muse enchendo meus ouvidos e entrando pela minha pele:


“Yeah, freedom is mine and you know how I feel
It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me.
And I’m feeling good.”

sexta-feira, agosto 08, 2008

Minha dupla personalidade me choca


No momento em que eu me vi livre daquela pira foi como se um espírito saísse de dentro de mim. E eu comecei subitamente a rir da minha própria cara, da minha própria capacidade de inventar amores, paixões, pessoas até. Da minha imensa e absurda mania de mitificar as coisas. De repente, não mais que de repente eu me olhei no espelho, olhei pra ele, pras fotos dele, e a nuvem se dissipou na minha frente. É só ele. Ele que eu já conheço, ele que é só um cara, ele que ficou tempo demais longe, eu sei.... mas continua sendo só ele. Não é o Brad Pitt, não é o Rodrigo Santoro, não é o Carlos G. É só ele. Sim, eu quero vê-lo, mas tem tantas outras coisas que eu quero agora. Sim, eu tenho saudade, mas também sinto falta de tanta gente, de tanta coisa. E todas essas coisas e pessoas e sonhos continuam ali fora me esperando, e eu deitada no sofá inventando e montando uma pessoa, pintando um painel com as minhas cores e características preferidas pra no final encaixar a cara dele ali no meio, e fingir pra mim que ele é aquilo ali.

E pensar que eu quase parei no tempo, eu quase perdi um fim de semana, eu quase desisti de um dos mais fortes sonhos de consumo da minha história.... só por ele

Cuidado com a pira, você pode pegar fogo.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Have I mentioned?



Eu não sei se já contei, mas eu deixei de te procurar. E de te esperar, e de fazer planos pro dia do seu aparecimento. Parei. Dessa vez não por desânimo, ceticismo, saco cheio, nem por nenhuma das razões habituais. Eu só não sei mais se eu quero te encontrar, simples assim.

Acontece que eu não sei se conseguiria arrumar espaço pra você na minha vida, não com tanta coisa que já levo comigo. Pior: eu sei que, na verdade, você me arrebataria de um jeito inoponível e insuperável, se enfiando a fórceps nas minhas entranhas, em cada pensamento, em cada segundo. Eu sei que você chegaria enfiando o pé na porta, invadindo sem pudor, fincando bandeiras vermelhas e montando acampamentos. E não sei se tenho estrutura pra essa bagunça dentro de mim. Não sei se quero mudar minhas prioridades, reorganizar meu tempo, faxinar meus armários, não sei se quero me readaptar pela milésima vez. Entenda, essa vida de cometa me fez cansar tanto de fases de readaptação, e eu não sei se quero começar tudo de novo. Pelo contrário, sei que tudo e todos que levo comigo têm importância demais, meus amigos são fodas demais pra serem trocados (momentaneamente sequer), minhas noites são boas demais pra serem abandonadas, minha voz e meu canto são fortes demais pra que eu cante só ao pé do ouvido, meu guarda roupa é cheio demais pra caber coisas de mais alguém. Eu sou boa demais pra ficar deitada no caixão de vidro te esperando, príncipe. Minha vida já tá preenchida. E bem preenchida.

Não, eu não disse que abri mão do amor, do romance, da paixão. É exatamente o oposto. Estou fazendo a opção por uma vida de amores, paixões, romances vários, orgasmos múltiplos, incontáveis possibilidades. Estou optando por uma existência plena, em todas as suas facetas e ângulos, em todas as suas aventuras e oportunidades. Trapézio sem rede de proteção. Sabe, príncipe... existe um mundo de gente e de coisas lá fora, e tantas dessas valem a pena. Eu não tenho mesmo tempo a perder te esperando.

A gente vai se encontrar, eventualmente. Eu sei que sim. O fato é que eu não posso mais esperar por esse dia. Então faça aí o seu caminho, construa aí a sua história, cresça sem medo, sem reservas, sem receios. Cresça, que quando a gente se achar eu te quero grande, e te mereço assim.

Te encontro pelo mundo, meu conto de fadas. Vou ser feliz e já volto.