Chega a ser ridículo o quanto você prefere os tapas aos beijos. E sempre foi assim. Sempre gostou de ser ignorado, de ofensas ao invés de elogios, de xingamentos ao invés de apelidos carinhosos. Sempre gostou de me irritar, de me ver com ódio, de trazer à tona a minha impaciência e a minha grosseria mais escondida, mais rara. Você sempre respondeu à rejeição, ao não, ao desprezo até. Quando eu pensava que você fosse desistir, apelar, desencanar, largar os bets, chutar o pau da barraca e nem me olhar mais na cara.... quando eu pensava que tinha ido longe demais, que tinha te empurrado com vigor demais, que tinha te repelido com veemência ou violência demais, toda vez que eu pensava que tinha pisado com muita força... você voltava. E me idolatrava, e me carregava no colo, me jogava pra cima, me apertava até eu me irritar de novo, e gritar, e te xingar de tudo e te mandar embora. E me fazia jantares, me colocava no lugar de primeira dama, queria me comprar presentes. Só porque você gostava mesmo de apanhar, e ponto.
Mas eu não sou assim. Eu não sei bater, eu não sei brigar, eu nunca fui boa em pisar na cabeça das pessoas. Eu sou a paga pau, eu sou a Maria Declarações de Amor, Ms. Love Song, incurável romântica. E todas as vezes em que fui quem eu realmente sou, todas as vezes em que fui minimamente doce, em que te disse alguma coisinha bonita cuidadosamente calculada e medida, me controlando ao máximo... você foi embora. E sumiu, e brincou de “ah, agora não quero mais”, e me deixou sem entender nada, sendo obrigada a me fazer de durona e insensível de novo, pra ver se você voltava. Quando eu sumia por tempo suficiente, quando eu te dava alguma razão pra insegurança, quando eu te batia um pouco, você voltava.
Eu hoje te via nessa câmera, tão ogro quanto sempre, tão grande e desengonçado, comendo oitenta pedaços de pizza, o menino que pulou da Kombi e bateu a cabeça, o menino que cresceu e não cresceu... e sentia tanto a sua falta. E talvez seja tudo culpa dessa distância burra que deixa a gente cego e fantasioso demais, talvez você apareça na minha frente e eu acorde, e consiga continuar te pisando e te batendo como sempre fiz, desde os primórdios desse nosso estranho, paleolítico e primitivo.... “troço”. Mas é que hoje, só por hoje, eu queria tanto parar de fingir que nem gosto de você.

