Eu sou uma pessoa tranquila, sabe? Eu não sou de grandes revoltas e indignações, eu não tenho uma grande lista de coisas que me são inaceitáveis, eu não fico nervosa à toa. Mas mais ainda... eu sou uma pessoa livre. Eu fui criada (bem ou mal) de uma forma muito livre, e eu não sei até que ponto foi a criação, a minha essência, as duas coisas combinadas. Mas eu não sou de julgar, de recriminar, de fazer críticas sobre o que eu não entendo, de discursar sobre o que tá “miles away” da minha competência. E eu não fico repetindo as minhas indignações pra todo mundo, todo dia. Eu poupo as pessoas do duvidoso, do controverso em mim (e olha que eu não perco a piada, hein?). Mas na boa, quando a minha opinião me parece de alguma forma preconceituosa, ou por demais parcial, ou quando eu acho que já falei demais daquilo, ou reclamei demais daquilo, eu poupo os interlocutores. Porque gente, todo mundo já sabe que você não suporta o presidente, a candidata, o partido, as quotas, o programa de ressocialização de detentos que vai colocar os presos trabalhando em órgãos públicos. Todo mundo já sabe que você não simpatiza com homossexuais afeminados (e na boa, você devia ter pelo menos um pouquinho de vergonha disso), todo mundo sabe. Não precisa falar disso todo dia, o tempo todo. Não precisa atestar a sua falta de humanidade, o seu egoísmo, a sua incompreensão da realidade, da história, da vida do outro, pros 4 ventos.
E será que nem uma vezinha você vai ficar com receio do que os outros podem pensar? Será q nem uma vez você vai pensar “ah, não vou falar isso, vão achar que eu tenho preconceito, vão VER que eu tenho preconceito”. Será que nem uma vez você vai olhar pra si um minutinho e pensar “ei, mas eu não entendo de dança, de arquitetura, de homeopatia, de computadores... talvez eu não deva ser tão incisivo nas minhas opiniões a respeito”? Não, né.
Porque eu sou uma pessoa tranquila, mas a minha porção “pessoa livre” e a minha porção “pessoa que tem pavor de ser injusta” se irrita. Demais. Com os “o sul é o meu país” que não sabem nada do resto do Brasil (e que portanto, não sabem o que é Brasil), com a classe média alta que acha que esse país é só deles, que nunca viram pobreza, que não tem um mínimo de pensamento social e coletivo. Com os preconceituosos (pior, os jovens preconceituosos) que vivem maquiando a sua resistência, a sua cabeça fechada, a sua alienação. De mim não se escondem, a mim não enganam, não mesmo.
E sabe o quê? Aí reside a minha indignação, a minha resistência, o que eu considero inaceitável e absurdo. Pessoas que ficaram presas nos séculos passados, pessoas que nunca se flexibilizam, que nunca mudam o ângulo, pessoas que querem dar sua opinião sobre tudo, incisivamente, sem receios, sem ressalvas. Pessoas e seus conceitos e pré-conceitos. Eu devia ser mais paciente com elas (de verdade, sem ironia).







