segunda-feira, maio 31, 2010

Dos conceitos

Eu sou uma pessoa tranquila, sabe? Eu não sou de grandes revoltas e indignações, eu não tenho uma grande lista de coisas que me são inaceitáveis, eu não fico nervosa à toa. Mas mais ainda... eu sou uma pessoa livre. Eu fui criada (bem ou mal) de uma forma muito livre, e eu não sei até que ponto foi a criação, a minha essência, as duas coisas combinadas. Mas eu não sou de julgar, de recriminar, de fazer críticas sobre o que eu não entendo, de discursar sobre o que tá “miles away” da minha competência. E eu não fico repetindo as minhas indignações pra todo mundo, todo dia. Eu poupo as pessoas do duvidoso, do controverso em mim (e olha que eu não perco a piada, hein?). Mas na boa, quando a minha opinião me parece de alguma forma preconceituosa, ou por demais parcial, ou quando eu acho que já falei demais daquilo, ou reclamei demais daquilo, eu poupo os interlocutores. Porque gente, todo mundo já sabe que você não suporta o presidente, a candidata, o partido, as quotas, o programa de ressocialização de detentos que vai colocar os presos trabalhando em órgãos públicos. Todo mundo já sabe que você não simpatiza com homossexuais afeminados (e na boa, você devia ter pelo menos um pouquinho de vergonha disso), todo mundo sabe. Não precisa falar disso todo dia, o tempo todo. Não precisa atestar a sua falta de humanidade, o seu egoísmo, a sua incompreensão da realidade, da história, da vida do outro, pros 4 ventos.

E será que nem uma vezinha você vai ficar com receio do que os outros podem pensar? Será q nem uma vez você vai pensar “ah, não vou falar isso, vão achar que eu tenho preconceito, vão VER que eu tenho preconceito”. Será que nem uma vez você vai olhar pra si um minutinho e pensar “ei, mas eu não entendo de dança, de arquitetura, de homeopatia, de computadores... talvez eu não deva ser tão incisivo nas minhas opiniões a respeito”? Não, né.

Porque eu sou uma pessoa tranquila, mas a minha porção “pessoa livre” e a minha porção “pessoa que tem pavor de ser injusta” se irrita. Demais. Com os “o sul é o meu país” que não sabem nada do resto do Brasil (e que portanto, não sabem o que é Brasil), com a classe média alta que acha que esse país é só deles, que nunca viram pobreza, que não tem um mínimo de pensamento social e coletivo. Com os preconceituosos (pior, os jovens preconceituosos) que vivem maquiando a sua resistência, a sua cabeça fechada, a sua alienação. De mim não se escondem, a mim não enganam, não mesmo.

E sabe o quê? Aí reside a minha indignação, a minha resistência, o que eu considero inaceitável e absurdo. Pessoas que ficaram presas nos séculos passados, pessoas que nunca se flexibilizam, que nunca mudam o ângulo, pessoas que querem dar sua opinião sobre tudo, incisivamente, sem receios, sem ressalvas. Pessoas e seus conceitos e pré-conceitos. Eu devia ser mais paciente com elas (de verdade, sem ironia).

The inescapable truth

quinta-feira, maio 20, 2010

quinta-feira, maio 13, 2010

é que às vezes eu me pergunto...

Aonde você mora, aonde você foi morar???...

quarta-feira, maio 12, 2010

Um dos meus preferidos de todos os tempos:


"É muito possível que tu não saibas, mas o fato é que eu não separo as coisas da minha vida em gavetas organizadas, com nome e ordem alfabética. A minha vida é um grande novelo de emaranhados e junções e faz algum tempo que a cor predominante é a tua.

É muito possível que tu não saibas, mas não há um único dia - muito provavelmente não há uma única hora - em que teu nome não roce a minha pele como um ramo ou uma asa e eu não te sinta em alguma coisa ou alguém. É muito possível que tu não saibas, mas eu coleciono de cor cada uma das tuas palavras, a entonação que tu deste a elas, quanto ar tu tomas nos inícios das frases e cada uma das coisas que já me disseste tem um lugar em mim, que cada promessa que fizeste [embora tu possas ter a mais absoluta certeza que não fizeste promessa alguma] são um tanto a minha casa, um tanto o meu relento.

É muito possível que tu não saibas, mas tu és a primeira e a última coisa em que eu penso no dia, que eu vivo com a dor do teu nome encrustada na pele, que vivo com a alegria da tua existência dentro dos olhos. É muito possível que tu não saibas, mas todos os dias eu me dedico ao exercício de te perder e te conquistar um pouquinho e deixo que faças o mesmo, para eu ganhar e perder sempre todas as minhas certezas, para que possamos ir nos fazendo um do outro de muitas maneiras."



Da Ticcia, aqui

terça-feira, maio 11, 2010

quinta-feira, maio 06, 2010

Me identifico

Gilmar
 
São onze da noite e ele, o Gilmar, me liga dizendo que não aguenta mais ser ignorado. Ele me quer. Agora. E está na porta da minha casa. Eu corro para fechar os trincos. Não estou mais no meu apartamento. Estou na casa dos meus avós. Fecho o portão do meio. Não estou mais lá também, estou no primeiro apartamento que morei com meus pais. Corro pra fechar a porta da cozinha também. Espio pelo olho mágico e Gilmar está de gorro. Não dá pra ver. Ele está calmo. Não grita, não bate na porta, nem aparece pelo olho mágico. Nada. A luz do corredor nem acende porque ele não se mexe. Mas ele liga de novo e avisa “chega de ser ignorado, eu vou entrar”. Ligo pra minha mãe, mas não acerto o número. De jeito nenhum. Agora vou discar com calma. 3, 8, 6, 2…não tem jeito, erro de novo. O inconsciente deixa claro: dessa vez não vai dar pra correr pra mamãe. Tento o mundo então. Abro a janela do meu quarto, que era meu quarto quando eu era criança, e grito para uma mulher na rua. Socorro. Homem tentando…tentando. Na hora que vou dizer o que ele está tentando, minha voz some. A mulher até olhou pra cima, mas desistiu. Corro e pego um papel. Mas nenhuma caneta funciona. Com muito sacrifício escrevo “homem tenta invadir minha casa”. Com o azul bem clarinho de caneta no fim. Jogo o bolo de papel que cai na cabeça de um homem que segura um bebê. Ele lê e grita “não posso fazer nada, estou cuidando do meu filho agora”. Ninguém parece dar importância. É como se, ser estuprada, assaltada, desgraçada, fosse um problema cotidiano. E os outros seguem nas ruas. Está sol. Tudo é tão calmo. Mas eu, pra variar, estou em pânico. O dia calmo, o solzinho gelado de fim de tarde que nada promete, e eu com pânico. É assim sempre e isso cansa tanto. Procuro meu Lexapro. Tomo logo 20 mg, afinal, trata-se de um estranho tentando entrar no meu apartamento. Chego na sala mais calma e ele já entrou. Mesmo com todos os milhares de trincos do mundo. Está sentado com seu gorro num canto escuro da sala. Minha cachorra não se move. Ele a matou? Matou minha cachorra? Grito “Lolitaaaaaaa” e ela se move normalmente. Ela não tem medo do Gilmar. É como se ele já morasse aqui. Tem chave e o amor da cachorra. O Gilmar não é feio não. Estamos na praia agora e eu estou cheia de picadas de borrachudo. Minha mãe liga dizendo que gosta do Gilmar. Meu avô vai dar uma volta e me deixar sozinha com ele, moço bom. Meu pai foi super com sua cara e divide um licorzinho. Mas Gilmar? Eu reclamo com ele. Mas que nominho heim? Ele diz: foca no mar e esquece o Gil. Todo mundo tem um lado bonito. Eu gosto disso. De repente, o que que é isso? Gilmar me deita no sofá e arranca minha calça e faz comigo o melhor sexo da minha vida. Calmo, carinhoso, devagar, com beijo na boca e olho no olho. Gilmar é tímido demais prum louco que invadiu minha casa. Como todo mundo pode gostar dele se ele deveria estar preso? Por que estou transando sem camisinha com um degenerado estuprador? Por que estou gostando? Gilmar, esse remédio que eu tomo, o Lexapro, me tira a capacidade de gozar. É sério. Eu até sinto tesão e fico excitada e tal. Mas gozar, demora aí umas cinco horas. Mas ele não tem pressa. E eu acabo conseguindo. E eu acho que amo o Gilmar. O cara do gorro que cansou de ser ignorado e resolver arrombar minha vida. Acordo com a blusa molhada e salgada. Mar. Só vou te chamar assim agora. Focando na parte boa. Ainda é cedo e dá pra dormir mais um pouco. Mas antes diminuo uma volta das cinco que eu dou na chave tetra da porta.

Tati Bernardi