sexta-feira, maio 18, 2007

Eu hoje já pensei em trezentas e noventa e oito coisas, e no fim de cada uma delas eu voltei pra você. Acho que nesses dias de decisão de vida podia nos ser permitido apertar o “fast forward” e ir parar lá no fim do dia, no momento que realmente importa. Eu hoje já passei a mão pelo cabelo um milhão e oitocentas vezes, me perguntando se ele tá macio e bonito o suficiente pros seus olhos e pras suas mãos, que talvez, apenas talvez, me encostem pela primeira vez. Eu hoje já tentei me convencer um trilhão e quatrocentas vezes de que no fim vai dar tudo errado, de que você nem vai aparecer, de que eu preciso me preparar de uma vez pra frustração, pra possibilidade do fracasso total. Porque na verdade tudo isso tá me soando simples e fácil demais, e na minha vida as coisas já deixaram (a tanto tempo) de chegar sem dificuldades e complicações.
O outro lado de mim, no entanto, já tentou convencer o pessimista de que você vai sim aparecer, de que vai sim dar tudo certo porque essa é a vontade de Deus, do destino ou da porra qualquer em que acredito. Mas a parte otimista tá rouca e doentinha demais pra convencer qualquer um hoje.
Eu hoje já tentei me concentrar em vários temas e processos diferentes, mas historinha nenhuma é boa o suficiente. Eu hoje já olhei mais de um milhão de vezes pro meu reflexo nessa janela, conferindo a cor do esmalte, corrigindo com o poder da mente o formato do meu rosto, sorrindo como uma idiota pra ver se decido qual dos tipos de sorriso fica melhor.
Eu hoje to me atracando na porrada com o equilíbrio, geralmente tão meu brother. Já quis jogá-lo pela janela e em seguida quis agarrá-lo com todas as forças pra ver se ele não foge mais, já quis mantê-lo sentadinho de pernas cruzadas em cima da mesa, mas ele não parece estar muito afim, sabe?
Eu hoje, e me prometo a cada minuto que é só por hoje, me permito estar envolvida. E apesar dessa natureza já tão racional, eu só por hoje me acolho em todo o meu desespero e minha loucura, em toda a minha adolescência crônica e detestável, em toda a minha fraqueza. Só por hoje eu me permito ser demasiadamente humana.

segunda-feira, maio 14, 2007

Semana passada

Do meio da minha certa e inabalável coragem, do centro desse meu perfil de guerrilheira que vai e faz e dá a cara a tapa e não teme nada nem ninguém, da meiuca desse meu jeito que não se abala e topa tudo que a vida mandar, lá, bem no núcleo, mora a minha exceção. O medo da dor. De dentro de todo o meu destemor, dos meus brios e valentias, lá, surgindo lá do meio do meu ser, mora a parte podre. O desespero que me consome, a covardia que me enfraquece e envergonha, a fobia incontrolável e incompreensível... de sentir dor. De me envolver, me permitir sentir, de soltar as amarras que me prendem e afrouxar a armadura que me protege do mundo e.... me ferir. Como se eu andasse no meio de um corredor coberto de adagas, espadas e lanças, como se rastejasse uma naja pelo meu travesseiro e a ferida, fatal, venenosa, derradeira, fosse só uma questão de tempo. Medo maior do mundo de no fim doer, de doer no início, de machucar profundo e amargo e me deixar o peito aberto, sangrando e ardendo. Medo, medo, medo. Do gume da faca, da profundidade do corte. Receio? Receio é friozinho pouco na barriga, a gente controla. Isso aqui que me corta a carne, me revira o estômago até dar azia e provocar a fúria da minha hérnia de hiato... isso aqui é pânico, e nada menos que isso.