terça-feira, outubro 21, 2008

O casal feliz



Eu odeio casais felizes. Esses que se beijam molhadamente em lugares públicos, que se agarram na sala de aula, que dão comida na boca do outro, que fazem musculação de mão dada. Os que estudam na mesma turma e se vêem todos os dias, mas ainda passam os intervalos de aula juntos, ela no colo dele, os dois entretidos num beijo que dura os vinte minutos de pausa entre a saída de um professor e a entrada de outro. Todos os dias. Esses que ficam se pegando no bar quando só tem mais uma pessoa na mesa, naquela situação em que o terceiro quer se matar de constrangimento, aqueles que dançam se beijando e esbarrando em todo mundo que tá em volta, derrubando bebida nos outros. Eu sempre, sempre odiei esses casais que se abraçam e se beijam hollywoodianamente no meio do supermercado e atravancam o corredor quando eu tô com pressa pra passar, ou quando preciso pegar alguma coisa que tá bem ali naquela prateleira.

Ontem a gente tava no supermercado comprando cerveja, naquele momento crítico do pseudo-relacionamento em que nenhum dos dois sabe como agir, naquele dia em que não se sabe de nada, depois do email mas antes da conversa, depois de 2 semanas sem se ver, “estamos juntos ou não, vamos ficar juntos ou não?”. Acho que nenhum dos dois sabia. E nem saberíamos, nem saberemos até o momento em que discutirmos e colocarmos os pingos nos is. A gente não estava junto e nem devia ficar junto, não antes de resolver essa palhaçada toda, mas... e aquele frio na barriga, aquela tensão sexual absurda, o que se faz com ela? A gente andava pelo corredor de bebidas e eu só faltava me agarrar àquelas prateleiras coloridas, de medo de correr pra você, de pavor de sucumbir àquela volúpia, àquela vontade doida de te pertencer. E não podia, não podia nem te olhar muito, não podia me expor assim, não podia me entregar, me mostrar, me envolver mais. Mas não dava pra falar com você sem olhar pra sua boca, não dava pra dissipar a tensão, não dava nem pra disfarçar.

A gente tava no caixa, eu digitando a senha do cartão, quando você me beijou. Eu olhava pra frente, pra maquininha do Visa na minha frente, concentrada!... eu nem tava virada pra você, quando você me puxou e me deu um beijo, ali mesmo. E eu esqueci, esqueci que odeio casais que se agarram no supermercado, esqueci que a mulher do caixa tava trabalhando até as 9 da noite, que ela tava ali na minha frente e que era uma palhaçada ficar te beijando bem naquela hora. Eu senti tanta falta do seu beijo que não consegui nem concluir o pensamento de que eu não devia estar te beijando, menos ainda ali, menos ainda naquela hora, daquele jeito. Eu nem pensei, naquela hora, que já me recusei a beijar no supermercado, que já falei tanto pra outros "pára de me abraçar aqui no meio porque eu odeio casais felizes", que já fiz papel de amarga tantas vezes por ser contra demonstrações públicas de afeto e desejo.

E a sua mão nas minhas costas andando até o estacionamento não devia me dar tanto alívio e tanta paz, e o seu sorriso não devia ter o poder de arrancar o meu. Eu não devia, por uma infinidade de razões, eu não devia nem podia gostar de você assim, quarto filho. Mas eu gosto.

“Uma mulher apaixonada é uma mulher baleada”. Eu? Um tiro em cada joelho.

terça-feira, outubro 14, 2008

Fragmentos

Aí eu te ligo no domingo à noite pra saber como foi de viagem, pra ouvir um pouquinho da sua voz que às vezes eu penso ser minha, pra ouvir você que às vezes eu penso ser meu (mas só às vezes). E ligo só pra sentir aquele calorzinho por dentro, só pra achar que dentro de mim nem tá tão vazio assim, só pra essa vontade de preenchê-lo com chocolate (o meu vazio) ir embora. Mas você ainda não chegou e vem com brincadeirinhas de que só volta no outro domingo, e eu nem acho graça, nem começo a acreditar e nem supro vazio interno nenhum com a tua voz. Talvez seja só porque você continua “curtindo a vida adoidado” com os amigos e eu nunca conseguiria te sentir meu nesse contexto, ou porque eu queria ficar falando de nada, sem pressa e sem vontade de desligar, como a gente sempre faz... e você tava no meio de todo mundo, no meio do seu mundo no qual eu não me encaixo, com seus casais de amigos que não me conhecem nem um pouquinho.



Sei que nessas horas eu me pergunto: por que mesmo? E ao contrário do seu medo de gostar, e ao contrário do nosso medo de envolvimento... nessa hora eu tenho medo de não me envolver, de não conseguir, de nunca “fill in the blanks”. De não conseguir nunca gostar de você MESMO, for real, de ficar de novo só na superfície, sem mergulhar nunca, sem me entregar de verdade nunca. Em momentos assim, quando eu não tenho borboletas de estômago por você (e pior, não me lembro de ter tido em algum momento), me dá medo de descobrir que tô com você só porque você gosta de mim, porque você é disposto e interessado e entregue como não eram a algum tempo, e correto, e diferente sim. Mas nada mais. E se tudo isso aqui existir só porque você gosta de mim... aaaah, é tão pouco. “E pouco eu não quero mais”.
No início era tudo tão simples, tão natural. Você era só mais um cara e eu podia ser exatamente eu mesma, porque se você não gostasse o problema era só seu. Hoje não. Agora que você ganhou importância eu já não posso me dar ao luxo de não te conquistar, não posso admitir tão facilmente a possibilidade de você não gostar de mim, de você por de alguma forma e por alguma razão não me querer mais. E aí eu jogo. E analiso se posso ligar, se devo mandar email, se falo, se calo, se mostro, se escondo, se dou, se seguro. Analiso, analiso, analiso. E ainda me pergunto se vale a pena, se gosto o suficiente, se falta algo. Eu dispenso 2 caras em 2 dias porque eles não são você, e ainda me pergunto se gosto de você o suficiente.

Acho que uma parte de mim sempre soube que essa maldita viagem ia mudar as coisas. Ia matar um pouquinho desse nosso amor tão novo e tão pequeno ainda, dessa nossa paixãozinha prematura, tão frágil, na incubadora, respirando por aparelhos. Dessa nossa relação que não é relacionamento ainda, mas que se não fosse essa festa e os seus instintos masculinos de solteirice subitamente reacendidos... certamente que era uma questão de tempo.
Na verdade eu preciso entender que, se você der mesmo pra trás assim, se você tiver mesmo retrocedido desse jeito tão Godoy, tão juvenil e tão imaturo... é porque você não vale a pena. De novo, por mais uma vez nessa minha historinha, eu vou cantar no último volume “é uma pena mas você não vale a pena”. Pra mais um cara tão descartável e igual a todos os outros. Eu não queria, profunda e verdadeiramente não queria que você fosse descartável. Eu não quero. Mas não depende só de mim, honey. Aqui nesse ponto da estrada... depende de você. Don’t let me down. Please, don't.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Uma bala em cada joelho



A verdade é que eu já gosto tanto de você. Mais do que eu provavelmente deveria, mais do que gosto, geralmente, dos outros. Mais do que estou acostumada a gostar. E mais a cada dia, 100% mais quando você me deixa depoimentos preocupados, com mil justificativas pra qualquer coisa pequena (ou grande, até), 150% mais quando você termina-os falando “se você ainda quiser me ver eu queria ir aí hoje”, 200% mais quando você liga no meio da tarde de segunda feira, e eu sinto um alívio quase físico só por saber que não vou precisar esperar até o fim de semana pra falar com você de novo. E 300% mais quando você toca o meu interfone nessa mesma noite de segunda, com 3 cervejas e essa sua cara de menino que adoro tanto, e que tenho vontade de morder e apertar até sufocar. E um tantinho mais com cada frase ou cara fofa que você faz, e elas são tantas.

E mesmo nas coisas que não gosto, mesmo quando você fuma um cigarro atrás do outro, mesmo quando fica empolgado demais e rindo demais de uma coisa idiota, quando fala do “show da vida”, quando faz poses e diz coisas que eu sei que são dos seus amigos beldades/comedores, ou quando fala deles como se fossem os caras mais fodas da face da Terra... mesmo com essas coisas, mesmo que nessas horas eu segure o ar e pense “não faz isso porque eu vou me cansar de você, não fala essas coisas que vai perder o encanto”... não perde. No dia seguinte eu acordo já com uma saudadezinha e uma vontade de te ver e te beijar que vão crescendo ao longo do dia, que de noite já deixaram de ser agradáveis e passaram a me incomodar. Porque eu não sirvo pra isso e não me permito mesmo romancear tanto, porque eu corro quilômetros do envolvimento e da perda do controle. Porque eu não deixo, não vou, não pulo. Porque sim, você tinha razão... eu tenho medo.

E ao mesmo tempo eu pulo, de ponta. Não me seguro, não fujo de você, não consigo arquitetar e jogar. No fim eu faço tudo que quero fazer e te falo tudo que quero falar, no fim da noite eu fui exatamente eu mesma. E a gente sabe que essa historinha de “seja sempre você mesmo, não existem jogos ou teatros” é lenda. Quer dizer, eu tinha essa certeza... Mas agora, com você, é tudo tão natural, tão verdadeiro, tão sincero... que às vezes eu me belisco pra ver se é de verdade, e várias vezes ao dia eu fico esperando vir alguma coisa que estrague tudo, porque tá bom demais pra ser verdade. Me preparando pro pior, pro fim, pro final infeliz.

Eu sei, eu sei... eu sou a doente dessa história. Ôrra, eu sempre soube! A paranóica, a pessimista, a traumatizada, complexada. Aquela que tomou chifre demais e foi enganada DEMAIS pra conseguir se relacionar de uma forma saudável, aquela que um belo dia parou e aí ficou só observando... e viu que em toda a sua volta todo mundo só fazia sofrer, se machucar, se apoiar em relacionamentos falidos e doentios. Aquela que por fim desistiu, e resolveu se relacionar só na superfície e não se envolver de verdade nunca. Já tem alguns anos que eu sou essa pessoa, babe... você é que não sabe disso ainda.

Eu hoje escrevo e transbordo e entorno o copo cheio demais de sentimento, e falo tudo de você e publico pra ver se passa. E coloco essa foto aqui pra saber que ela tá exposta em algum outro lugar, e não necessariamente no meu fundo de tela mais. Já posso tirá-la de lá, não preciso mais ficar olhando pro seu pescoço e suas pintas tão minhas, já posso retornar ao equilíbrio, ao mundo real, a um estado mínimo de racionalismo e frieza (nossa, era tão fácil atingi-lo antes). Agora tá tudo aí, solto no mundo, e eu já posso respirar em paz.

Já vai, já vai passar. Tomara.