Eu odeio casais felizes. Esses que se beijam molhadamente em lugares públicos, que se agarram na sala de aula, que dão comida na boca do outro, que fazem musculação de mão dada. Os que estudam na mesma turma e se vêem todos os dias, mas ainda passam os intervalos de aula juntos, ela no colo dele, os dois entretidos num beijo que dura os vinte minutos de pausa entre a saída de um professor e a entrada de outro. Todos os dias. Esses que ficam se pegando no bar quando só tem mais uma pessoa na mesa, naquela situação em que o terceiro quer se matar de constrangimento, aqueles que dançam se beijando e esbarrando em todo mundo que tá em volta, derrubando bebida nos outros. Eu sempre, sempre odiei esses casais que se abraçam e se beijam hollywoodianamente no meio do supermercado e atravancam o corredor quando eu tô com pressa pra passar, ou quando preciso pegar alguma coisa que tá bem ali naquela prateleira.
Ontem a gente tava no supermercado comprando cerveja, naquele momento crítico do pseudo-relacionamento em que nenhum dos dois sabe como agir, naquele dia em que não se sabe de nada, depois do email mas antes da conversa, depois de 2 semanas sem se ver, “estamos juntos ou não, vamos ficar juntos ou não?”. Acho que nenhum dos dois sabia. E nem saberíamos, nem saberemos até o momento em que discutirmos e colocarmos os pingos nos is. A gente não estava junto e nem devia ficar junto, não antes de resolver essa palhaçada toda, mas... e aquele frio na barriga, aquela tensão sexual absurda, o que se faz com ela? A gente andava pelo corredor de bebidas e eu só faltava me agarrar àquelas prateleiras coloridas, de medo de correr pra você, de pavor de sucumbir àquela volúpia, àquela vontade doida de te pertencer. E não podia, não podia nem te olhar muito, não podia me expor assim, não podia me entregar, me mostrar, me envolver mais. Mas não dava pra falar com você sem olhar pra sua boca, não dava pra dissipar a tensão, não dava nem pra disfarçar.
A gente tava no caixa, eu digitando a senha do cartão, quando você me beijou. Eu olhava pra frente, pra maquininha do Visa na minha frente, concentrada!... eu nem tava virada pra você, quando você me puxou e me deu um beijo, ali mesmo. E eu esqueci, esqueci que odeio casais que se agarram no supermercado, esqueci que a mulher do caixa tava trabalhando até as 9 da noite, que ela tava ali na minha frente e que era uma palhaçada ficar te beijando bem naquela hora. Eu senti tanta falta do seu beijo que não consegui nem concluir o pensamento de que eu não devia estar te beijando, menos ainda ali, menos ainda naquela hora, daquele jeito. Eu nem pensei, naquela hora, que já me recusei a beijar no supermercado, que já falei tanto pra outros "pára de me abraçar aqui no meio porque eu odeio casais felizes", que já fiz papel de amarga tantas vezes por ser contra demonstrações públicas de afeto e desejo.
E a sua mão nas minhas costas andando até o estacionamento não devia me dar tanto alívio e tanta paz, e o seu sorriso não devia ter o poder de arrancar o meu. Eu não devia, por uma infinidade de razões, eu não devia nem podia gostar de você assim, quarto filho. Mas eu gosto.
“Uma mulher apaixonada é uma mulher baleada”. Eu? Um tiro em cada joelho.

No início era tudo tão simples, tão natural. Você era só mais um cara e eu podia ser exatamente eu mesma, porque se você não gostasse o problema era só seu. Hoje não. Agora que você ganhou importância eu já não posso me dar ao luxo de não te conquistar, não posso admitir tão facilmente a possibilidade de você não gostar de mim, de você por de alguma forma e por alguma razão não me querer mais. E aí eu jogo. E analiso se posso ligar, se devo mandar email, se falo, se calo, se mostro, se escondo, se dou, se seguro. Analiso, analiso, analiso. E ainda me pergunto se vale a pena, se gosto o suficiente, se falta algo. Eu dispenso 2 caras em 2 dias porque eles não são você, e ainda me pergunto se gosto de você o suficiente.
Acho que uma parte de mim sempre soube que essa maldita viagem ia mudar as coisas. Ia matar um pouquinho desse nosso amor tão novo e tão pequeno ainda, dessa nossa paixãozinha prematura, tão frágil, na incubadora, respirando por aparelhos. Dessa nossa relação que não é relacionamento ainda, mas que se não fosse essa festa e os seus instintos masculinos de solteirice subitamente reacendidos... certamente que era uma questão de tempo.