2008, com toda a certeza, foi o melhor ano da minha vida até agora
Na meia noite do dia 31/12/ 2007 eu estava sozinha, batendo meu cartão de ponto e saindo do hotel em que eu trabalhava na Florida (meu turno acabou exatamente à meia noite do dia 31), tirando a gravata borboleta e dobrando as mangas da camisa do meu uniforme de garçonete. Depois de trabalhar 9 horas. E aí fui pra uma festa na piscina do condomínio em que eu morava, com uns 50 brasileiros fazendo bagunça, bebendo e ouvindo música alta, só esperando a polícia chegar. Quando ela chegou eu saí correndo pro meu apartamento, andando estrategicamente pelos lugares mais escuros no caminho, morrendo de medo de ser presa como uma das únicas pessoas de mais de 21 anos na festa. Numa virada de ano no mínimo diferente...
Em 2008 eu vi o pôr do sol no Golfo do México, na cidade mais linda e mais azul que você possa imaginar, na cena mais linda que eu podia imaginar. Eu trabalhei 16 horas por dia, ganhei 50 dólares de gorjeta só pra buscar uma bandeja suja no quarto de um hóspede, comprei o mundo inteiro com um dinheiro que era 100% meu. Recebi a melhor cantada da minha vida (de um jamaicano chamado Ziggy com quem eu jamais teria coragem de sair), recebi os elogios mais lindos da vida (dos velhinhos caquéticos da Florida, que me levavam da mais completa irritação à mais completa alegria num espaço de tão poucas horas, todos os dias). E engoli os maiores sapos da vida, de milhares de americanos burros, grossos e mal educados que falavam um inglês tão errado e tão pior que o meu.
Em 2008 eu conheci o primeiro homem fiel da minha vida. E ele era meu. E a gente não tinha nada em comum, e ele não tinha nenhum dos requisitos físicos e intelectuais que um dia eu elegi como necessários, e ele... não era pra mim. Não seria, se eu fosse eu mesma naquele momento, se eu vivesse no mundo real e não naquele universo paralelo, se eu fosse uma estudante de direito, e não uma garçonete. Mas eu era uma garçonete, ele era o gerente, e... depois de tantos anos de papéis invertidos, de cuidar de todos e de carregar um mundinho nas costas, eu tinha alguém pra cuidar de mim. E me quis desde a primeira vez que me olhou, e me conquistou lentamente a cada dia, cada carona e cada almoço corrido entre um trabalho e outro. E me achava linda de uniforme e cheirando a café, e olhava torto pras meninas arrumadas demais. Achava um absurdo que eu me sentisse ameaçada por elas um segundo sequer. “Você não me conhece não???”.
E assim eu vivi o relacionamento mais puro e simples que poderia viver. Antes mesmo de voltar pra casa e deixar tudo pra trás, eu já sabia que nunca mais teria algo como aquilo e alguém como ele aqui, no mundo real. Esse no qual as pessoas hesitam tanto, se repelem tanto, se condicionam tanto à auto-suficiência e solidão (a começar por mim).
Em 2008 eu conheci NY. Eu puxei as malas mais pesadas do mundo por uns 6 quarteirões ao longo da Broadway e tudo era lindo e leve. Eu paguei 20 dólares numa diária e fiquei hospedada bem ali, na esquina da Broadway com a 103st, eu acordei no dia seguinte e nevava lá fora, e eu estava em Manhattan, e a cidade era branca e ainda mais linda que nos milhões de filmes que eu já tinha visto com aquele cenário. Eu vi a neve pela 1ª vez, e era muita, e era NY. E vi a Times Square, fiz guerra de neve no Central Park, passeei pelo Museu de História Natural, me perdi no metrô e ouvi o melhor jazz e um dos mais bonitos vocais femininos da minha vida também ali, under NY. Perdi o vôo de volta e chorei no guichê da American Airlines pra não me cobrarem taxa e pra me colocarem no vôo mais próximo, pq eu tinha milhões de kg de bagagem e nenhum lugar pra dormir. E dormi no chão do JFK Airport, e passeei de AirTrain entre os terminais, tentando descobrir qual deles era o mais legal. Bem Tom Hanks. Vim pra casa de malas lotadas, não paguei excesso por um milagre, passei por uma alfândega fechada, com nem um único policial pra abrir as minhas coisas. Voltei pra casa. Mas estava longe de ser casa.
E aí passei meses doendo por dentro e me perguntando se devia mesmo ter voltado, sentindo falta de ar por ter sido arrancada da minha vida de sonho e jogada de volta num mundo que não era mais meu, numa carcaça que não era mais minha. Andei pelas ruas dessa cidade sentindo o ar me faltar e a vista escurecer, sem explicação, de puro desespero, de pura claustrofobia. Eu não cabia na minha pele.
E aí eu recebi a carta da imobiliária pedindo o apartamento, e fui procurar outro, e vi as maiores porcarias do mundo até encontrar o lugar perfeito, a meras 2 quadras do ap. antigo, com o espaço exato e o número de cômodos ideal. E fui morar sozinha. E mesmo que tentasse muito eu não saberia dizer o tamanho do passo que isso foi e a conquista que isso representa. O peso que eu tirei das costas, a liberdade que ganhei, o alívio que experimento todo dia, só por saber que é um dia a menos de desgaste, de briga, de fracasso de um relacionamento mãe e filha em que.... o que se perdeu não tem mais volta.
Em julho eu fiz a tal cirurgia que sonhava desde os 15 anos. E experimentei uma das melhores sensações da vida, e me vi nascer ainda mais uma vez, talvez pela terceira só esse ano. Me virei do avesso. Por algum tempo nem consegui me reequilibrar, fazer caber a pessoa antiga e a nova dentro de mim, contrabalacear a menina tímida com a mulher fatal que eu vi surgir dentro de mim.
Foi aí que ele apareceu. Quando eu ficava com caras que não sabiam nada de mim, quando eu nem me importava com isso, quando conquistar só usando o corpo era suficiente (e fascinante, até), ele entrou na minha vida. Num dia em que eu usava moletom, all star e calça jeans meio larga, num dia em que eu estava sozinha no bar sem amigas de escolta, num dia... diferente. Ele apareceu e me beijou de um jeito diferente, me elogiou de um jeito diferente, se interessou pela minha vida, minha família, minha rotina... pelo meu cérebro, e não pelos meus peitos.
Eu me apaixonei, abri as portas do meu coração e da minha casa (talvez rápido demais), me permiti criar mitos, inventar um amor novo. E caí do cavalo. Duas vezes.
Eu fiz a maldita da monografia em 2 semanas. Virei noites e tardes na biblioteca, entreguei em cima da hora, protocolei sem correções. E apresentei conquistando a atenção, a simpatia e os inúmeros elogios dos professores da banca, como tinha sido nos meus sonhos mais otimistas. Me formei, finalmente.
Consegui um trabalho aos 45 do 2º tempo, comecei o intensivo pra OAB me quebrando com a falta de tempo, tive uma única semana de férias, comprei o vestido do baile pelo menor preço já visto.
E no fim eu passei a virada com as duas pessoas que mais fizeram parte de mim neste 2008. Aquelas das melhores fotos, das melhores histórias, dos melhores colos, porres, amores, desamores, lágrimas... Tiro, grito e correria. De total cumplicidade, compreensão, compartilhamento, apoio. Hoje, dia 05 de janeiro de 2009, eu constato pela milésima vez e pela milésima razão que nada nem ninguém substitui... a lealdade e a cumplicidade total de uma amizade, ou melhor, de um amor como esse nosso.
2009 já começa com reviravoltas. Pelas quais eu não esperava, pelas quais eu lamento mas ao mesmo tempo agradeço TANTO. Bring it on, life! Bring it on... Nada como um ano novo pra recomeçar do zero.
3 comentários:
Ah.... sua baranga. Chorar no escritório no segundo dia de trabalho, não vale!
Haja o que houver amor igual ao nosso não tem.
Loooooove U...
You know you love me!
hahahahahaha
quanta coisa pra colocar na sua conta, heim?
e sim, um ano novo é tudo de que precisamos!
all i want is the best for our lives my dear
;)
Nosso... é assim que eu penso: " nãda como um ano novo..."
Que esse ano seja tudo de melhor pra vc!
Beijos!
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