Então é assim que é esse negócio de virar adulto, né? Engraçado, quando criança eu pensava tanto nisso e nunca me passou pela cabeça que fosse algo assim tão complexo, demorado, doído. Nunca tive muita noção do processo, talvez acreditasse que ia acordar um dia e pronto, adulta. Ou talvez eu pensasse que era um status que se adquiria automaticamente com a entrega do diploma, com o fim do período de estudo, estudo e mais estudo (que me parecia tãaao longo). Eu pensava que quando “a idade adulta” chegava a gente tinha muito mais segurança, muito mais certezas. Que seria muito mais independente de família, de passado, de pai e mãe. Que enfim, estaria cuidando de mim e das minhas coisas 100% sozinha.
Eu me lembro da menininha aérea e sonhadora que fui, que cantarolava e despatalava as margaridas do jardim, que girava nas saias dos vestidos, que usava laços no cabelo e sonhava com o príncipe encantado e, na maioria do tempo, não a enxergo dentro de mim. Mais, acho que ela ficaria tão desapontada com algumas coisas, com a profissão por vezes tão árida que escolhi, o guarda-roupa com poucas saias e vestidos, a ausência de perfeição do mundo real. A quantidade de medos e dúvidas que me povoa.
Acho que ela olharia pra mim e diria: “Ei, não era pra você ser adulta? Não era pra ter virado escritora? Aliás, não era pra você estar se casando, aos 24 anos? Não era esse o plano”. É, era esse o plano. Em todos os testes e brincadeiras infantis, essa era a idade que eu preenchia. 24 anos, quando a minha mãe se casou (não que isso tenha dado muito certo pra ela, mas enfim). Eu teria que olhar pra menina que fui e dizer “olha, minha querida... na verdade eu ainda estou bem distante do casamento.” Eu também tentaria explicar a ela que, pensando como a adulta que ela espera que eu seja, não há do que reclamar. Eu tenho um bom emprego, os melhores amigos que poderia desejar, um amor que não é perfeito e um namorado que não é príncipe, mas que são, ambos, bons o suficiente. Eu tentaria ensinar a ela que no mundo adulto, “Sempre há algo que falta. Guarde isso sem dor embora, em segredo, doa.”**
Mas pensando bem, talvez eu simplesmente devesse pedir a ela pra relaxar e aproveitar, e não tentar explicar ou ensinar nada. Talvez pedir pra ela ser mais criança, se preocupar menos com o futuro e parar de adivinhá-lo ou prevê-lo tanto.
Não, eu não pediria pra ela praticar esportes, me lembro bem demais do pavor que essa ideia provocava. Nem diria pra ela aprender a andar de bicicleta, se dedicar mais à matemática, nada disso. Pelo contrário, eu diria pra ela respeitar os próprios limites e não se martirizar por eles existirem. E só.
** reza a lenda (ou melhor, a internet), que o trecho é da Clarice.
Um comentário:
Olha amiga, a única coisa que tenho a dizer em relação a isso é: Ninguém no mundo está sofrendo tanto para crescer como eu. É uma dor física pensar que eu não posso mais ser adolescente, estagiária, estudante, menina.
Aiiii, Jesus, isso tem que melhorar. Eu não vou poder ser a Alice com síndrome de Peter Pan para sempre.
Socorro, Deus, para o tempo que eu quero recomeçar!
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