Ele tem 5 anos, e nos últimos quatro ele me viu, ao todo.... umas 5 vezes. Não é de se admirar que tenha demorado alguns segundos pra reconhecer essa irmã mais velha que aparece em quase todas as fotos espalhadas no quadro da sala, mas que raramente está em movimento, em carne e osso.
Ele nunca me larga. Meu cabelo fica sujo em poucas horas pelo tanto que ele mexe, bagunça e “faz bigode”; meu ipod e meu computador são os únicos objetos respeitados na casa; o único canal permitido além do Cartoon, Jetix e Disney Channel é a Warner, o meu canal, e só em momentos selecionados.
Ele abominava as meninas e tinha nojo de beijos e demonstrações de afeto homem-mulher em geral. Até aparecer a Maria Clara. A “tia” contou que a Maria Clara é disputada por uns 5 meninos da sala. Eles a seguem e a rodeiam o dia todo (literalmente, eu vi), tentam agradá-la de todos os jeitos (o que é pouquíssimo, considerando as técnicas e habilidades de conquista de meninos de 5 anos) e tentam chamar a atenção dela com diálogos do tipo “você lembra aquele dia que a gente se encontrou na rua?”, ou “lembra daquele dia que você me deu a mão na hora de fazer as duplas pra descer pro recreio?”. Depois da Maria Clara, ele passou a considerar a possibilidade de ter uma namorada, um dia, “só quando eu crescer, né mãe?”.
Ele tem as pernas muito roxas, os joelhos constantemente ralados, uma potência vocal impressionante. Ele quer saber como se diz tudo em inglês; ele fala igual o Cebolinha; ele entra no meu quarto (que é o quarto dele) de manhã e não diz nada, fica me olhando até eu abrir os olhos, e aí diz “já tá de dia!”. Ele fica por ali puxando assunto e me fazendo 300 perguntas (“quem é o pai de Deus?”), e não vai embora enquanto eu não levanto. Ele não sai de casa se eu for ficar, ele ameaça ligar o fogão pra acender um incenso, ele quer jogar Playstation. Ele me acha tão adulta quanto os pais dele e os amigos deles, gente grande mesmo, apesar de já entender perfeitamente que nós somos irmãos, e o pai dele também é meu pai, mas a mãe dele não é minha mãe.
Ele agora a pouco disse, segurando meu Itouch muito cuidadosamente nas duas mãos:
- Num é que isso é muito caro??
- É, muuuito caro! Tem que ter cuidado!
- Eu tenho um dinheiro guardado, e...(eu já rindo).... você sabe
qual, né?
- Não, que dinheiro?
- O troco! (uma moeda de 50 centavos que
ele me mostrou outro dia)
- Aaah tá, o troco!...
E aí eu passei algum tempo procurando no Ipod uma música que ele conhecesse, pra colocar pra ele ouvir. Por fim ele me disse:
- Eu só conheço o créu, tropa de elite e “vamos embora pro baaar!... beber, cair, levantar!”
- Como assim? Você só conhece essas NA VIDA?
- É, eu só sei essas três.
Ele disse isso pra mim. EU, gerada no rock'n'rio, estudante de canto e piano, 200% musical. Não, DOIS MIL E NOVECENTOS POR CENTO musical. Ele inicia hoje uma terapia de choque de iniciação em música de qualidade. Irmão meu pode ser tudo, menos.... ISSO.
ps: aceito sugestões de tratamento
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