contém spoilers
Ontem não era um bom dia. A chuva fina e fria, o cabelo sujo, os pés inchados, a blusa branca que eu sujei na hora do almoço e não podia ir pra casa trocar, a consulta médica, os remédios, o passeio forçado pelo centro e pelo escritório do plano de saúde... e aí a constatação da minha solidão crônica, o medo, o desamparo, a dúvida... tanta coisa conspirando e contribuindo pra um vazio no meu peito, uma coisa que a Ticcia uma vez chamou de “infelicidade branca e leve que não mostra os dentes, essa que veste o dia de um plástico transparente e lambe os nossos rostos sem que percebamos” , e eu achei tão apropriado.

E aí eu entrei com a minha mãe naquele cinema antigo e pequeno do centro, e fui, só ontem, depois de tanto tempo, assistir Ensaio sobre a Cegueira.
E desde então tudo que eu faço é tentar entender o que aquele filme fez comigo. Queria explicar, nem que fosse só pra mim, a profundidade da dor que eu senti, a intensidade do meu tremor e dos meus soluços dentro do cinema, a minha incapacidade de me levantar daquela poltrona e fugir, quando a minha vontade e a minha necessidade eram simplesmente sair dali, pra não ver mais, pra parar de doer. E doía tanto, tão fundo, toda a dor do mundo, toda a dor da humanidade, como se eu estivesse cega também, ou como se só eu enxergasse e o resto do mundo estivesse ruindo e apodrecendo à minha frente, e só eu pudesse ver. E o mundo real virou irreal, e a ficção veio pra vida, a dor da tela tornou-se minha. Quando as mulheres saíram de sua ala pra se oferecer em troca de comida pra todo o grupo, eu tampava a boca pro meu choro não fazer barulho demais, e tampava os olhos pra não ver mais. Mas ouvia, e sentia a dor delas, e me encolhia na cadeira como se as mãos dos homens bárbaros apalpassem e batessem em mim também, como se os gritos e ofensas fossem também pra mim.
De todas as crises que tive com cenas de estupro ao longo da vida (e considerando-se que eu me recuso a assisti-las), com certeza nada foi tão forte quanto isso. O estupro consciente, por estado de necessidade, a prostituição famélica. A maior dor do mundo. Eu tampava meus olhos com toda a força e nem assim podia deixar de ver, eu soluçava alto e nem por isso podia deixar de ouvir. E nada disso é metafórico.
Eu ainda não sei como assisti até o fim. Sei, sei sim. Eu não consegui levantar da poltrona, eu não consegui fugir dali. Foi por isso, só por isso que eu fiquei até o final. E fui até me acostumando com a dor, me firmando, me recompondo aos poucos.... e até vivi com eles a esperança do final. Um sopro de alívio, leve.
Mas aquela dor ainda está aqui. Eu sei que está, eu sei e sinto, o dia todo, que ela veio comigo pra vida real, pra fora do Cine Luz, pra dentro da minha bolsa, pra debaixo das minhas roupas. Eu hoje acordei triste e calada, sozinha, sozinha, sozinha. A única a enxergar no meio dos cegos, a única a doer em silêncio enquanto o mundo... segue em frente. E ninguém entenderia, e nem eu entenderia, e... pra quê explicar?
“Oh sim, eu estou tão cansada...”
Mas aquela dor ainda está aqui. Eu sei que está, eu sei e sinto, o dia todo, que ela veio comigo pra vida real, pra fora do Cine Luz, pra dentro da minha bolsa, pra debaixo das minhas roupas. Eu hoje acordei triste e calada, sozinha, sozinha, sozinha. A única a enxergar no meio dos cegos, a única a doer em silêncio enquanto o mundo... segue em frente. E ninguém entenderia, e nem eu entenderia, e... pra quê explicar?
“Oh sim, eu estou tão cansada...”
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