Existe algo alheio a mim e às minhas vontades e medos, existe alguma coisa que sei lá, deve estar no ar, “na nossa energia”, “no movimento cósmico”, que independe do que eu faça ou como faça. Algo que segura e me impede de me envolver, de dar o passo. Qualquer passo.
Às vezes nem é você. Nem é o que você disse, ou deixou de dizer, mas é a combinação entre a pergunta e a resposta. Melhor, é a completa discordância entre o que eu esperava ouvir e o que você efetivamente diz.
É sempre no momento em que eu dou algum passo na sua direção, em que eu te digo ou te faço alguma coisa, calculada e cuidadosamente, geralmente alguma coisa tão menor do que as suas demonstrações de afeto e demarcação de território, que tudo dá errado. É justo quando eu fecho os olhos e dou um passo, por menor que ele seja, que você se esquiva, (mesmo que sem querer), que você se mostra, (sempre sem querer), tão menor do que eu esperava que você fosse. E é geralmente algo tão pequeno, que nem me incomodaria em outra situação, que seria tão irrelevante se fosse outra pessoa, se fosse outra relação. Porque com o resto do mundo eu sei lidar, no resto das minhas relações eu me adapto, eu harmonizo, eu equilibro. Com você não.
E mesmo que depois você conserte, que se desculpe, que perceba o seu erro sem que eu precise apontá-lo, mesmo que no fim a gente se acerte... eu inevitavelmente volto para aquele lugar de quem não sabe se vale a pena, de quem se desacostumou a ceder, a se adequar, a relevar. De quem sempre vai duvidar e repensar esse pseudo-relacionamento, por qualquer pedrinha no caminho. Volto, e é tão mais forte que eu, para aquele lugar (imaturo, eu sei) de quem não sabe mais brincar desse negócio. Pr’aquele nosso lugar comum de quem não namora, de quem não assume, não se envolve, não pula.
Você não pula e quem sou eu pra recriminar, se na maioria do tempo o seu medo legitima o meu, se a sua resistência é o meu alívio, se o seu controle é o nosso equilíbrio. Quem sou eu pra te cobrar quando a minha recusa em te assumir é do mesmo tamanho da sua, senão maior. Quem sou eu pra criticar a sua imaturidade emocional quando só sei resolver os problemas dos outros, quando sou tão justa, tão equilibrada, tão compreensiva e complacente em todos os outros setores da vida, menos nesse.
E por isso eu não cobro. Mas em dias como hoje eu quero me matar por não ser mais tão sozinha e independente como antes, por ter aberto a maldita da porta e agora... agora não sou só eu. Não sou só eu que preciso tomar o remédio, não é só da minha conta, não sou só eu, minha inflamação no colo do útero, minha vida e meus problemas. Tem você. Ela escreveu “namorado” na receita e pela primeira vez eu não disse “ele não é meu namorado”. Pela primeira vez (e talvez pela última) eu senti uma ligeira e passageira falta desse status.
E eu que não sei precisar, depender e dar satisfação, eu que não sei cobrar e pedir, eu que “aprendi a me virar sozinha e se eu to te dando linha é pra depois te abandonar”... fico aqui. Imaginando prováveis reações, atualizando a caixa de entrada do email pra ver se por acaso você se interessou, se você sequer se lembrou. E nada. Cantando “don’t let me down” e esperando que você ouça, em algum nível. E entenda, e aja da forma que eu queria que você agisse. Rezando pra que você enxergue nos meus olhos de gato de botas que isso tudo é tão difícil pra mim, torcendo pra que você queira tornar mais fácil, menos pesado.
E mesmo que você ligue pra dizer que se importa e se preocupa, como fez ontem, e mesmo que você fale e fale e fale... tem uma hora em que falar não é mais suficiente. Eu não sou sozinha quando quero ser e sou tão sozinha nessa hora, quando importa, quando tudo que eu queria era olhar pro lado e ver que você ta ali, voluntariamente, por escolha própria.
“Se você quiser e vier
pro que der e vier
Comigo.”
Eu não me canso de auto-discutir a nossa pseudo-relação. Aqui, na minha caixa de pandora, que você nunca saberá que existe.
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