Por hoje, só por hoje, eu vou me dar o direito de sentir toda a paz e todo o calor que eu quiser sentir. Só por hoje eu vou me permitir essa sensação plena de alívio e conforto, só por hoje eu vou deixar que a lembrança da minha cabeça no ombro dele me console e me dê calma. No dia de hoje, mas só por hoje, eu vou me permitir a fraqueza e a fragilidade de me sentir mais segura por tê-lo aqui comigo, por ter alguém.
Eu tenho alguém. Eu tenho alguém pra ligar a qualquer hora, pra falar de nada, pra falar de tudo, pra fazer propostas indecentes às 3 da tarde, pra matar aula do cursinho (as minhas), pra fazer matar aula da faculdade (as dele). Alguém que me chega de surpresa na segunda ou no domingo à noite, de mochila nas costas (“ah, umas roupas pra deixar aqui, só”) e diamante negro no bolso. Que sai com os amigos mais cedo na sexta pra dar tempo de me ver, que tenta de mil jeitos me convencer a não sair pro mercado pra ficar no sofá vendo o jogo, a não acordar cedo pra sair, e ficar na cama até meio dia. Eu tenho alguém que acha graça nas minhas pequenas crises de ciúme, no meu sotaque, nas minhas expressões, na minha mania por pipoca rosa. Eu tenho alguém que diz "mas porque é que você já tá se vestindo? espera aí!" quando eu saio do banho e já abro o guarda roupa, alguém que deita na minha cama e diz "vem aqui, minha morena". Minha morena, gente... minha morena me mata!...
Eu tenho alguém no meu sofá, na minha cama, na minha cabeça. Eu, que sempre gostei tanto do instituto da posse.
Eu hoje vou me aninhar no ombro dele sem medo do envolvimento, vou me despir sem vergonha, vou me envolver sem controle. Talvez hoje eu até confesse que gosto mesmo e muito dele. Sem me preocupar com o que ele pode pensar, sem medo dele correr pra longe.
Talvez hoje, só por hoje, eu...
Não, eu não vou usar essa palavra.
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