sexta-feira, janeiro 23, 2009

Committed



Eu tinha regras. Muitas. Rígidas. Eu tinha limites intransponíveis. Eu tinha teorias quase absolutas. Eu tinha convicções e definições que não podiam ser abandonadas. E nem eu queria que fossem. Eu determinei, há tanto tempo, que certas coisas eram inaceitáveis, que certos defeitos eram eternos, que certos erros eram irreparáveis. Quando os meus amigos tratavam como uma fase o que pra mim era um indiscutível fim, eu não conseguia entender a cabeça de todo mundo. “Gente, vocês não tão entendendo... ACABOU!”. E eles me pareciam tão irritantemente confiantes em afirmar que não era bem assim.

Era assim. Dentro de mim era mesmo definitivo, determinado, absoluto. Dentro de mim não tinha mais jeito, não tinha mais volta. Sem mágoa, sem desespero. Apenas não tinha volta.

E aí eu te vi de novo. Cedo demais, perto demais, disposto demais. “Eu só quero saber se eu ainda tenho alguma chance com você, algum dia.” E me doía a súbita vontade de te apertar a mão, de te olhar nos olhos, de te apertar contra o meu peito. Me doía a sua presença, a sua existência, pura e simplesmente. Até que eu repeti o papel ridículo da minha mãe e fui lá pra fora chorar. Como eu nunca faço, como eu já nem sabia que conseguia fazer. E eu soluçava sendo obrigada a admitir que não era tão fácil, que você ainda estava dentro de mim, que passar tantas horas olhando aquelas fotos não tinha sido o suficiente pra te deletar daqui de dentro.

E aí você veio me abraçar e me consolar e me garantir que não ia doer mais, e eu vi. Vi nos seus olhos que alguma coisa tinha mesmo mudado, ouvi nas suas palavras que a sinceridade a toda prova continuava presente, ainda maior, ainda mais pura. E naquele momento eu soube até que o resto do mundo nunca entenderia, e que pela primeira vez, eu não me importava. Que tivesse sido muito rápido, que eu tivesse sido muito fraca, que tivesse cedido e acreditado cedo demais. Quem ama e prima pela verdade como eu, sabe reconhecê-la. Ainda mais olhando nos olhos. Ela estava ali, a verdade. Em você. E eu soube que depois de tanto tempo procurando e esperando, talvez eu finalmente tivesse achado algo real.

Depois veio o medo. No dia seguinte, e no outro, e nas vezes em que eu abri de novo aquelas fotos procurando que a dor fosse forte o suficiente pra me fazer desistir, e ela nunca era. Veio o medo, acredito que o resto dele, ainda acumulado nos meus cantos e esquinas, tão alimentado por tanto tempo, tão infiltrado em cada célula minha. E pelo momento histórico, pela avalanche de acontecimentos, pela overdose de emoções, eu tive que calar. Todas as minhas vozes e ânsias, todas as minhas dúvidas e temores. Que esperassem mais um pouco, porque o resto das programações não podia esperar.

Até que eu compreendi que eu devia isso a mim mesma. Uma chance de tentar, de confiar e me envolver de novo, uma chance pra crescer com alguém e não mais sozinha. Uma chance, uma porta aberta pra vida entrar. Ser dura é diferente de ser forte, ser fria é diferente de ser adulta. Eu merecia uma história nova, eu precisava de uma história bonita. Eu devia a mim mesma e a todas as minhas cicatrizes uma chance pra construí-la. “Saber amar é saber deixar alguém te amar.”

Eu não sei bem quando foi que me rendi. Não sei qual das suas palavras, qual dos seus olhares, qual dos seus gestos me fez parar de resistir e despir de vez a armadura. Acho que foram todos, juntos. A decisão de me incluir de vez na sua vida e na sua família, o jeito firme e decidido com que você entrou na minha. Com todos os meus problemas e turbilhões, lá no meio deles. Abraçando a causa, fazendo o lanche, segurando a barra, corrigindo a prova. Eu me preocupava em não te envolver demais na loucura, com medo de você querer correr quando visse de perto o drama mexicano que é a minha história. E você já tava lá dentro, e já fazia tanta questão de estar, e já me garantia que sempre estaria, mesmo se eu não quisesse ou pedisse. E quando olhei pra mim eu vi que no meio de tanta coisa e tanto problema, eu ainda conseguia estar feliz. Mais: eu mal conseguia parar de sorrir. E era você. Porto seguro, muro de sustentação, bote salva-vidas. Era você, só você no meio de tanta loucura e tanta dor e tanto breu. Era só você e já era suficiente: eu não estava mais no escuro.

“- Promete que amanhã eu não vou ter que dividir a sua atenção? Que você vai ser só minha?
- Eu já sou só sua há muito tempo, Leonardo. Só você não percebeu isso ainda.”

Eu não tenho mais medo da palavra, meu bem. Pelo contrário. A cada minuto que passa eu me sinto mais segura e mais completa nesse lugar.

Da sua namorada.

3 comentários:

Anônimo disse...

Pra mim a barreira da traição ainda é intransponível.

Como conciliar toda a história posterior com a traição anterior? Cmo confiar que mais uma vez não fomos enganadas por palavras bonitas? Como acreditar que ele mais uma vez não irá a uma festa ou a um bar sozinho e que não irá sucumbir à primeira gostosa que aparecer?

O limite entre a confiança e a desconfiança é muito tênue.

Parabéns, você inicia um namoro já sendo "a traída", a "enganada", a "chifruda".

Unknown disse...

Amigaaaa
Entrei aqui depois de muuuito tempo!!
Adorei saber q a cada dia vc se sente melhor!
O que um namoro não faz com a gente, hein??
Saudadessss... Bjaaoo

T. disse...

Eu nem sei o que falar.
Eu estou mto feliz que vc finalmente tenha se rendido ao amor.
Eu acho lindo que vc tenha uma foto para colocar na legenda: "match".

E em resposta ao seu comentário no meu post.... eu nem sei o que falar tbm. Eu não sei que lugar ele ocupa. Eu não sei o quanto ele faz parte da minha história.
Eu não sei de nada!