quarta-feira, novembro 19, 2008

Meu castelo de vidro

Hoje a gente brigou. Nós duas, uma com a outra, como quase nunca acontece. Dessa vez você não brigou comigo, como na esmagadora maioria das vezes eu permito que seja. Eu falei, mas ainda falei tão pouco, e ainda fui tão equilibrada e contida. E ainda ponderei tanto.


É claro que eu não esperei que fosse dar em alguma coisa. É óbvio que não esperei um final diferente do que foi, você falando tudo que queria e se utilizando das mesmas ofensas de sempre (tão gastas e repetidas) pra depois desligar o telefone na minha cara. Eu já perdi as contas, mãe. De quantas vezes você já gritou e me chamou de “filha ingrata”, de “a pessoa mais egoísta que eu já vi”, de alienada, de invejosa, de fraca. Eu já me cansei de ficar indignada com o sonho em que você vive, com a sua convicção ao falar dos seus direitos, do seu dinheiro (como se você não tivesse parado quase que completamente de trabalhar e produzir a mais de 5 anos), da sua capacidade, da sua infalibilidade. Já me cansei de imaginar se você realmente pensa que seu ex-marido faz questão te bancar pro resto da vida independente do número de uniões estáveis que você tenha depois dele, já me cansei de imaginar se um dia você vai andar com as suas próprias pernas, já me cansei, já tô tão exausta, de todas as vezes em que você vem e constrói esse personagem de guerreira, de mulher independente que criou as filhas sozinha e saiu lá do interior de Minas Gerais, e veio sozinha no mundo contra tudo e contra todos, e agora nós estamos aqui, em Curitiba, graças aos seus imensos esforços. Como se a história fosse mesmo assim.

Como se eu não tivesse que controlar sempre todo o dinheiro pra você não gastá-lo em qualquer coisa, como se você soubesse administrar qualquer coisa, como se eu não segurasse todas as pontas e pagasse todas as contas, como se eu não aturasse a tanto tempo o seu transtorno bipolar mal e porcamente tratado, que você não aceita e não assume. Como se eu não te levasse nas minhas costas por tantas vezes, como se os nossos papéis não fossem completamente invertidos. Por tantos anos já.

Mas hoje quando você falava que o seu vestido pra minha formatura vai custar o quanto você quiser que ele custe, quando você falava “eu é que sei a luta que foi formar uma filha em direito com tudo que eu passei”, quando você vinha me esfregar na cara que aturou as minhas depressões e crises existenciais, que você me tratou e me curou e me criou, que você fez e aconteceu... e que se eu não me acho digna e não me permito gastar e me vestir de acordo... foi demais. Peraí, mas quem é que tá se formando mesmo???? Ah, achei que fosse eu, achei que o mérito era, ao menos 50%, MEU. Desculpa, acho que me confundi.

E quando falei, da forma mais esforçadamente apaziguadora do mundo, que não queria discussão, que eu só tava me posicionando pra conversa não ficar tão unilateral, eu quis rir do seu surto e dos seus gritos de que eu estava copiando as suas palavras, assim como eu sempre te copiei em tudo. Ops, então agora eu não posso mais falar “unilateral”? Ok, vou anotar aqui, essa palavra é sua.

Talvez eu devesse ter tão mais paciência e amor pra te dar, mãe. Talvez eu devesse compreender, a todo o tempo, que o que você tem é patológico, que é a bipolaridade falando, que eu não posso ser intolerante e irônica assim. Mas eu é que sei o quanto já me exauri. Eu é que sei como todos os dias são difíceis, como nos últimos tempos eu nem sei dizer qual dos seus pólos me incomoda mais. Porque eu já não sei te amar nem na sua euforia.

Outro dia a gente almoçava junto, e estávamos bem, e você se esforçava pra gente ficar bem, pra me conquistar, pra melhorar o nosso relacionamento. Como, eu reconheço, você tem feito tanto nos últimos tempos. E o seu esforço me sufocava, a sua presença, por si só, me doía por dentro, e a minha incapacidade de te tolerar me enchia os olhos d’água e o peito de dor. A sua insistência em falar por horas a fio do que só te dizia respeito, de ignorar o resto, de fazer planos mirabolantes e esperar receptividade, credulidade e empolgação de todos os interlocutores... tudo. Naquele dia eu saí quase que fugida do restaurante, de mãos apertadas dentro dos bolsos, chorando a perda total da minha capacidade de te amar. Chorando o desgaste completo dessa nossa relação que me impede de passar por cima das mágoas e cicatrizes, das feridas ainda abertas, e te amar incondicionalmente. Eu já nem sei mais se existe amor incondicional em algum lugar. Eu sei que em mim ele não está.

Toda vez em que me pego desejando ter tido uma história diferente, eu me obrigo a relembrar que foi tudo isso, essa história torta, por tantas vezes novela mexicana, que me trouxe até aqui, que me fez o que eu sou. E às vezes eu ainda tenho algum orgulho e alguma admiração pelo que eu me tornei no meio desses maremotos todos. O fato é que, algumas vezes, é inevitável não desejar. Não querer ter tido uma mãe como a das minhas amigas, uma família estruturada, uma vida mais simples. Não querer ter tido menos responsabilidades, mais conforto, Nem que isso me custasse um pouco dessa liberdade, dessa autonomia. Mas que me trouxesse um pouco de paz, um pouco menos de peso, e até uma vida mais padrão. Às vezes, (mas só às vezes), eu penso que não me importaria em ser um pouco mais comum, um pouco menos madura, um pouco menos independente e auto-suficiente... só pra sentir um pouco menos de dor.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Things change...


Eu me lembro de ter 16, no máximo 17 anos, e de estar conversando com a minha mãe (numa época em que ainda éramos tão saudáveis e tão pouco machucadas uma pela outra, diga-se de passagem) sobre amor, invenção, mitos e expectativas. Eu me lembro da frase:

- É engraçado, mãe. Eu passo o dia esperando o Fernando chegar, e isso vai crescendo em mim como se ele chegar fosse a coisa mais importante e mais linda da vida, como se ele fosse a melhor coisa do mundo. Aí ele chega... e é só ele.

O Fernando foi o meu primeiro namorado. Na verdade ele também foi o único, assim “de fato e de direito”, o único NAMORADO em caps lock. Com direito a tudo do pacote: dois anos e meio que poderiam ter se resumido aos 6 primeiros meses, planos de um futuro juntos, um amor que parecia eterno e parecia o mais intenso do mundo (tudo é, aos 16 anos), cumplicidade total, choro compulsivo, dependência completa, alienação, milhões de indas e vindas, muitos e muitos chifres que eu nunca enxerguei, caso (dele) com amiga (minha)... final trágico, molhado e salgado. Um clássico mesmo.

Mas o fato é que, penso eu, foi ali, naquela frase, que eu percebi pela 1ª vez que o nosso amor a gente inventa. Nunca mais esqueci, e uns anos depois, depois de ver a historinha se repetir incessantemente em todos os cantos e com todos os meus amigos, elegi a música como hino. Cazuza, né... o maior "produtor de hinos" que já vi. E quem me dera dizer “nunca mais inventei”. A verdade é que, conscientemente ou não, eu nunca deixei de inventar.

Essa semana ELE voltou. Ele, o tema principal ou secundário dos últimos posts todos, o tema que nem eu agüentava mais, o tema que eu finalmente tinha esgotado. Ele, a dor que eu finalmente superara, a doença da qual eu acabava de me recuperar. Exatamente quando eu parei de esperar, quando eu deixei de sentir falta, quando eu olhei pros lados e comecei a caminhar pra outros lados, exatamente quando eu apertei o OFF, ele reapareceu.

Quando ligou e perguntou se podia vir aqui, eu a princípio não soube o que dizer. Quis falar “eu acabei de te esquecer e acho que ainda não devo te ver de novo”, eu pensei em dizer “faz muito pouco tempo que eu parei de sentir sua falta, eu não posso arriscar a voltar pra aquele lugar”, mas eu não podia. E eu precisava tanto ouvir e entender, eu precisava tanto escutar alguma explicação dele pra toda a covardia e o sumiço, que eu disse “tudo bem, venha então”.


E numa repetição da história, ele chegou, e era só ele. Não me doeu o peito, não me apertou o estômago, não me faltou ar. Eu olhei pra ele, diretamente, nos olhos e até na boca, pra me testar mesmo. E nem quis me jogar naqueles braços. Mesmo. Me sentei na outra ponta do sofá e fiquei mais calada do que de costume, processando e entendendo, enquanto ele falava e eu percebia que, meu Deus, aquele era ele e sempre havia sido! O cara disposto e especial, o cara diferente dos outros, o cara que vinha construindo comigo uma historinha tão diferente das minhas outras últimas, por ser também diferente dos meus outros últimos... esse nunca existiu. Ele, o ELE de verdade (e não o que eu inventei) era só aquele menino sentado na ponta do meu sofá, brilhando os olhos de alívio quando eu disse “peraí, mas eu te falei isso, eu achei que tinha deixado claro... quem não quer compromisso sou eu.”, me puxando pra perto sorrindo com o mesmo jeito de sempre, tão simples e até tão puro, mas... tão pouco. Sem entender que não foi só uma pausa, uns dias sem se ver. Sem compreender que pra mim foi um FIM, pra mim foi ctrl+alt+Del mesmo, sem direito a guardar as mensagens no celular, sem direito a ficar lembrando ou sofrendo, mas por dentro... doendo de verdade. E ele me puxava pra perto dizendo “aaai, que bonitinha você brava” sem nem imaginar a dor que eu tinha sentido, a dor que ele tinha me causado. Peraí, mas se ele nem era aquela pessoa, se ele nem era o cara que eu inventei, pintei e me apaixonei... Se ele não tem idéia do que eu mitifiquei e nem sabe quem é o personagem que eu criei aqui dentro, quem me causou aquela dor então? É, não foi ele. Fui eu.

Ele pensa que voltamos ao mesmo ponto de antes, ele pensa que estamos juntos. Eu achei melhor não contar pra ele que não é bem assim. Achei melhor ficar calada e não dizer “Tá, a gente até fica junto... mas você não é mais o meu plano A. Você é, ôuquêi, a minha assistência técnica e a minha distração, mas prioridade? So sorry, babe, mas pra isso você é pequeno demais.” Eu achei melhor não contar pra ele que existem outras possibilidades e que eu tenho outras balas no bolso, outras cartas na manga. Eu achei melhor, obviamente, não dizer pra ele que inventei uma outra paixão nesse tempo, dessa vez pelo meu futuro chefe (lindoooo!), e que eu não vou apagar ela de dentro de mim, não enquanto houver uma chance mínima. Ele não sabe, e conhecendo meu gado, ele talvez nunca saiba. Mas eu continuo cantando meu hino:

O seu amor é uma mentira que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego, você não pode ver!
Não pode ver que no meu mundo um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo entre você e eu!

O nosso amor a gente inventa pra se distrair
E quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Hand in my pocket



I'm broke but I'm happy
Eu não vou mentir: doeu. Feriu de verdade, machucou mesmo, como a algum tempo não machucava. Eu não chorei (ao menos não muito), porque sei lá, acho que a fonte secou, mas a dor foi real. E eu não fingi nem pra mim mesma que tivesse sido insignificante, que tivesse sido só mais um, que não tivesse, dessa vez, me frustrado de verdade. Eu assumo: dessa vez eu acreditei, mesmo, que fosse ser diferente, que fosse dar certo, que fosse valer a pena. Pensei que agora sim, finalmente, não fosse ser mais um pseudo-relacionamentozinho descartável e superficial, como tantos que tive e vinha tendo. Eu acreditei de verdade, do fundo da minha alma, e acho que é isso que faz doer mais.
I'm brave but I'm chickenshit
Não vou me passar de durona dessa vez, nem dizer que vai ser preciso mais pra me abalar e me fazer cair porque eu já me congelei por dentro, porque “dessa vez eu já vesti minha armadura”. Não. A verdade é que dessa vez eu deixei entrar, a alegria e a dor, a expectativa e a angústia, os olhos brilhando de alegria e da mais profunda tristeza, as borboletas e depois, o soco na boca no estômago.
I'm sad but I'm laughing
“O homem bateu em minha porta e eu abri”. E ele decidiu ir embora e me deixar ali, sozinha no sofá da sala. Com a geladeira cheia de cerveja pro dia em que ele quisesse vir, com uma luz indireta e calculadamente fraca perto da cabeceira da cama e uma trilha sonora selecionada pro dia em que ele voltasse, com o quarto arrumado pra que ele pensasse que eu sou organizada. Mas ele não voltou.
E eu, desde então, toda vez que abro esse blog e olho pra foto dos meus pés contemplando o Atlântico norte, penso em alguma coisa a dizer que não isso, procuro algum texto nos meus arquivos que fale de qualquer coisa que não esse tema, que não o final triste e fraco dessa novelinha. Tão alheio à minha vontade. Sabe, eu nem sei quando tinha sido o meu último pé na bunda.
I'm short but I'm healthy, yeah
O fato é que eu tô indo. Em frente, com calma, pra outros lados. A dor maior já passou, e, apesar de eu ainda me sentir tão pequena e incapaz às vezes... tá passando.
I'm high but I'm grounded.
Eu já não quero mais ligar quando bebo, nem quando não bebo, nem quando me sento sozinha no sofá vemelho, nem quando passo sem querer pela ESPN. Nem quando vejo alguma coisa da Nova Zelândia em qualquer lugar. Os meus pés estão mesmo no chão. Eu passei mais um fim de semana comigo mesma, só comigo, como sempre foi, como eu me desacostumei tão rápido. Eu tô voltando pra casa, um pouco a cada dia, e tem ficado tão mais fácil.
I feel drunk but I'm sober.
Eu estou sã, sempre sã, mesmo que no meio de tanto turbilhão, mesmo com todos os entorpecentes. Mesmo que vendo pessoas que me lembram você, mesmo transitando por esferas um tanto mais próximas de você, mesmo que eu me aproxime, perigosamente, dos elos que um dia nos uniram. Ambos, os entorpecentes e os elos, eles não me levam pra você. Eles (thanks God) me trazem pra mim.
I'm sane but I'm overwhelmed.

E aí eu comecei a viver o outro lado.
I'm free but I'm focused.
“Joga a energia no trabalho”, né? Então tá. E virei noite, e mais uma noite, e depois um fim de semana, depois de meio dia às 7 da noite, e depois mais uma madrugada, até a terça feira em que eu fui dormir às 6 da manhã com minhas 104 páginas prontas e a sensação do dever finalmente cumprido.
I'm tired but I'm working, yeah.
E levantei 1 hora e meia depois pra ir logo pra faculdade, imprimir e encadernar logo esse troço e entregar pra correção. 3 dias depois, o protocolo. Eu pari a minha monografia.
E sei, sei que todos os outros pariram também e eu não fiz nada mais que minha obrigação. Mas vocês não entendem: eu realmente não achei que ia conseguir, que ia sair. Não com a minha completa falta de saco e de interesse com essa faculdade, não com a minha completa incerteza sobre o que fazer com esse diploma e o que fazer depois dele, não com a minha total falta de rumo. Quando fui falar com a minha orientadora no fim do semestre passado eu disse: “eu não sou essa pessoa que chega no 5º ano da faculdade e não sabe mais o que quer, eu nunca tive esse perfil”. E não tenho mesmo. Mas é aqui que me encontro, é nesse papel que eu tô, e se há o que fazer a respeito, eu não sei o que é.
I’m lost but I’m hopeful, baby
Eu estou perdida sim. Coração, cabeça, alma, tudo perdido. Sem saber o que vai ser da banca, da faculdade, da formatura, da OAB, do desemprego, e sem saber o que fazer com esse coração cansado. Sem saber se consigo juntar os pedaços e começar do zero, sem saber por onde começar, nem pra onde ir.
I'm poor but I'm kind
Currículos nas escolas de inglês não só porque eu sei lá quando estive assim tão pobre, mas porque uma parte de mim sempre quis dar aula, e porque isso pode ser, por hora, tão melhor que ser explorada num escritório.
I'm young and I'm underpaid.
Mas vai ser o que tiver de ser.

I'm hard but I'm friendly, baby.
De tudo o que eu mais queria era entender quando é que a minha força deixou de ser um motivo de admiração e passou a ser uma razão pro medo, um combustível pra covardia. Porque eu sempre achei de uma falsidade e uma pretensão imensas esse negócio de “eu sou o tipo de mulher que assusta os homens”, sempre pensei que fosse uma desculpa feminista esfarrapada pra perdedoras. Tipo essas meninas que recheiam o Orkut de fotos fazendo biquinho pro espelho e comunidades “eu sou inteligente sim, e daí?” e “mulheres com conteúdo”. Cegueira, mentira, auto-imagem absolutamente equivocada.
Mas sabe, dessa vez ficou tão claro pro mundo todo e até pra mim que foi covardia, que você não conseguiu mesmo encarar a minha independência e a minha liberdade, que eu seeei.... são incomuns pra minha idade.
I'm green but I'm wise.
Mas você e qualquer um seria se seus pais se separassem quando você tinha 12 anos; se seu pai se casasse com uma mulher 4 anos mais velha que você; se eles decidissem ter outro filho e você tivesse que engolir; se você se visse cuidando da sua mãe com distúrbio bipolar aos 18 anos, e se daí pra frente você nunca mais tivesse ocupado o lugar de filho; se vocês se mudassem pra outro estado, pra outra cidade que você mal conhecia, (fria demais, triste demais), se você se visse obrigado a construir uma vida nova ali; se você ficasse sozinho por 5 anos e descobrisse que é possível ser feliz sim, e que te faz mais forte não se apoiar em ninguém; e se você morasse em outro país e se visse capaz de construir uma vida ali; e se você fosse morar sozinho, por fim, pra se ver enfim livre de verdade; e se você nem soubesse mais o que é ter uma família estruturada e papéis familiares bem definidos; e se você não tivesse que dar satisfação, e se você pagasse suas contas e cuidasse da sua casa; e se você descobrisse 2 dias antes do seu aniversário de 23 anos que seu pai tem Parkinson.... Se você tivesse vivido metade do que eu vivi, você não teria 24 anos e tanto medo de uma menina de 23. Porque no fundo, eu sou só uma menina.

I'm here but I'm really gone
Não importa mais. Ou como você gosta de dizer: “it doesn’t really matter”. Eu vou embora, eu nem estou mais nesse lugar, e quando eu der por mim, o mundo já vai ter dado outra volta, eu vou olhar pra trás e rir disso tudo. Desse post, da importância que eu dei pra esses problemas, do quanto tudo mudou. É sempre assim na minha vida, na minha estrada.

I'm wrong and I'm sorry, baby
Eu sinto muito que não tenha sido simples e bonito como eu queria, e ouso dizer, como queríamos que fosse. Sinto muito que eu seja tão distante do convencional, tão complexa, tão quebrada, errada, virada do avesso. Sinto muito que eu não seja uma menina como as outras.
Mas você sabe, ao mesmo tempo agradeço a Deus por não ser.

And what it all comes down to?
Is that everything is gonna be fine, fine, fine!
Cause I’ve got one hand in my pocket and the other one’s giving a high five.

E no fim tudo fica bem mesmo, mas a decisão nunca é minha. É sempre alheio e superior à minha vontade, à minha expectativa. Fica tudo bem, mas num lugar totalmente diferente do que eu pensava que seria. A guinada na estrada já estava ali, só não dava pra ver. No final eu sempre vejo que as coisas se resolveram pro melhor, só que o melhor nunca era o que eu imaginava.
Certo em linhas tortas. No meu caso, sempre tão tortas.

terça-feira, outubro 21, 2008

O casal feliz



Eu odeio casais felizes. Esses que se beijam molhadamente em lugares públicos, que se agarram na sala de aula, que dão comida na boca do outro, que fazem musculação de mão dada. Os que estudam na mesma turma e se vêem todos os dias, mas ainda passam os intervalos de aula juntos, ela no colo dele, os dois entretidos num beijo que dura os vinte minutos de pausa entre a saída de um professor e a entrada de outro. Todos os dias. Esses que ficam se pegando no bar quando só tem mais uma pessoa na mesa, naquela situação em que o terceiro quer se matar de constrangimento, aqueles que dançam se beijando e esbarrando em todo mundo que tá em volta, derrubando bebida nos outros. Eu sempre, sempre odiei esses casais que se abraçam e se beijam hollywoodianamente no meio do supermercado e atravancam o corredor quando eu tô com pressa pra passar, ou quando preciso pegar alguma coisa que tá bem ali naquela prateleira.

Ontem a gente tava no supermercado comprando cerveja, naquele momento crítico do pseudo-relacionamento em que nenhum dos dois sabe como agir, naquele dia em que não se sabe de nada, depois do email mas antes da conversa, depois de 2 semanas sem se ver, “estamos juntos ou não, vamos ficar juntos ou não?”. Acho que nenhum dos dois sabia. E nem saberíamos, nem saberemos até o momento em que discutirmos e colocarmos os pingos nos is. A gente não estava junto e nem devia ficar junto, não antes de resolver essa palhaçada toda, mas... e aquele frio na barriga, aquela tensão sexual absurda, o que se faz com ela? A gente andava pelo corredor de bebidas e eu só faltava me agarrar àquelas prateleiras coloridas, de medo de correr pra você, de pavor de sucumbir àquela volúpia, àquela vontade doida de te pertencer. E não podia, não podia nem te olhar muito, não podia me expor assim, não podia me entregar, me mostrar, me envolver mais. Mas não dava pra falar com você sem olhar pra sua boca, não dava pra dissipar a tensão, não dava nem pra disfarçar.

A gente tava no caixa, eu digitando a senha do cartão, quando você me beijou. Eu olhava pra frente, pra maquininha do Visa na minha frente, concentrada!... eu nem tava virada pra você, quando você me puxou e me deu um beijo, ali mesmo. E eu esqueci, esqueci que odeio casais que se agarram no supermercado, esqueci que a mulher do caixa tava trabalhando até as 9 da noite, que ela tava ali na minha frente e que era uma palhaçada ficar te beijando bem naquela hora. Eu senti tanta falta do seu beijo que não consegui nem concluir o pensamento de que eu não devia estar te beijando, menos ainda ali, menos ainda naquela hora, daquele jeito. Eu nem pensei, naquela hora, que já me recusei a beijar no supermercado, que já falei tanto pra outros "pára de me abraçar aqui no meio porque eu odeio casais felizes", que já fiz papel de amarga tantas vezes por ser contra demonstrações públicas de afeto e desejo.

E a sua mão nas minhas costas andando até o estacionamento não devia me dar tanto alívio e tanta paz, e o seu sorriso não devia ter o poder de arrancar o meu. Eu não devia, por uma infinidade de razões, eu não devia nem podia gostar de você assim, quarto filho. Mas eu gosto.

“Uma mulher apaixonada é uma mulher baleada”. Eu? Um tiro em cada joelho.

terça-feira, outubro 14, 2008

Fragmentos

Aí eu te ligo no domingo à noite pra saber como foi de viagem, pra ouvir um pouquinho da sua voz que às vezes eu penso ser minha, pra ouvir você que às vezes eu penso ser meu (mas só às vezes). E ligo só pra sentir aquele calorzinho por dentro, só pra achar que dentro de mim nem tá tão vazio assim, só pra essa vontade de preenchê-lo com chocolate (o meu vazio) ir embora. Mas você ainda não chegou e vem com brincadeirinhas de que só volta no outro domingo, e eu nem acho graça, nem começo a acreditar e nem supro vazio interno nenhum com a tua voz. Talvez seja só porque você continua “curtindo a vida adoidado” com os amigos e eu nunca conseguiria te sentir meu nesse contexto, ou porque eu queria ficar falando de nada, sem pressa e sem vontade de desligar, como a gente sempre faz... e você tava no meio de todo mundo, no meio do seu mundo no qual eu não me encaixo, com seus casais de amigos que não me conhecem nem um pouquinho.



Sei que nessas horas eu me pergunto: por que mesmo? E ao contrário do seu medo de gostar, e ao contrário do nosso medo de envolvimento... nessa hora eu tenho medo de não me envolver, de não conseguir, de nunca “fill in the blanks”. De não conseguir nunca gostar de você MESMO, for real, de ficar de novo só na superfície, sem mergulhar nunca, sem me entregar de verdade nunca. Em momentos assim, quando eu não tenho borboletas de estômago por você (e pior, não me lembro de ter tido em algum momento), me dá medo de descobrir que tô com você só porque você gosta de mim, porque você é disposto e interessado e entregue como não eram a algum tempo, e correto, e diferente sim. Mas nada mais. E se tudo isso aqui existir só porque você gosta de mim... aaaah, é tão pouco. “E pouco eu não quero mais”.
No início era tudo tão simples, tão natural. Você era só mais um cara e eu podia ser exatamente eu mesma, porque se você não gostasse o problema era só seu. Hoje não. Agora que você ganhou importância eu já não posso me dar ao luxo de não te conquistar, não posso admitir tão facilmente a possibilidade de você não gostar de mim, de você por de alguma forma e por alguma razão não me querer mais. E aí eu jogo. E analiso se posso ligar, se devo mandar email, se falo, se calo, se mostro, se escondo, se dou, se seguro. Analiso, analiso, analiso. E ainda me pergunto se vale a pena, se gosto o suficiente, se falta algo. Eu dispenso 2 caras em 2 dias porque eles não são você, e ainda me pergunto se gosto de você o suficiente.

Acho que uma parte de mim sempre soube que essa maldita viagem ia mudar as coisas. Ia matar um pouquinho desse nosso amor tão novo e tão pequeno ainda, dessa nossa paixãozinha prematura, tão frágil, na incubadora, respirando por aparelhos. Dessa nossa relação que não é relacionamento ainda, mas que se não fosse essa festa e os seus instintos masculinos de solteirice subitamente reacendidos... certamente que era uma questão de tempo.
Na verdade eu preciso entender que, se você der mesmo pra trás assim, se você tiver mesmo retrocedido desse jeito tão Godoy, tão juvenil e tão imaturo... é porque você não vale a pena. De novo, por mais uma vez nessa minha historinha, eu vou cantar no último volume “é uma pena mas você não vale a pena”. Pra mais um cara tão descartável e igual a todos os outros. Eu não queria, profunda e verdadeiramente não queria que você fosse descartável. Eu não quero. Mas não depende só de mim, honey. Aqui nesse ponto da estrada... depende de você. Don’t let me down. Please, don't.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Uma bala em cada joelho



A verdade é que eu já gosto tanto de você. Mais do que eu provavelmente deveria, mais do que gosto, geralmente, dos outros. Mais do que estou acostumada a gostar. E mais a cada dia, 100% mais quando você me deixa depoimentos preocupados, com mil justificativas pra qualquer coisa pequena (ou grande, até), 150% mais quando você termina-os falando “se você ainda quiser me ver eu queria ir aí hoje”, 200% mais quando você liga no meio da tarde de segunda feira, e eu sinto um alívio quase físico só por saber que não vou precisar esperar até o fim de semana pra falar com você de novo. E 300% mais quando você toca o meu interfone nessa mesma noite de segunda, com 3 cervejas e essa sua cara de menino que adoro tanto, e que tenho vontade de morder e apertar até sufocar. E um tantinho mais com cada frase ou cara fofa que você faz, e elas são tantas.

E mesmo nas coisas que não gosto, mesmo quando você fuma um cigarro atrás do outro, mesmo quando fica empolgado demais e rindo demais de uma coisa idiota, quando fala do “show da vida”, quando faz poses e diz coisas que eu sei que são dos seus amigos beldades/comedores, ou quando fala deles como se fossem os caras mais fodas da face da Terra... mesmo com essas coisas, mesmo que nessas horas eu segure o ar e pense “não faz isso porque eu vou me cansar de você, não fala essas coisas que vai perder o encanto”... não perde. No dia seguinte eu acordo já com uma saudadezinha e uma vontade de te ver e te beijar que vão crescendo ao longo do dia, que de noite já deixaram de ser agradáveis e passaram a me incomodar. Porque eu não sirvo pra isso e não me permito mesmo romancear tanto, porque eu corro quilômetros do envolvimento e da perda do controle. Porque eu não deixo, não vou, não pulo. Porque sim, você tinha razão... eu tenho medo.

E ao mesmo tempo eu pulo, de ponta. Não me seguro, não fujo de você, não consigo arquitetar e jogar. No fim eu faço tudo que quero fazer e te falo tudo que quero falar, no fim da noite eu fui exatamente eu mesma. E a gente sabe que essa historinha de “seja sempre você mesmo, não existem jogos ou teatros” é lenda. Quer dizer, eu tinha essa certeza... Mas agora, com você, é tudo tão natural, tão verdadeiro, tão sincero... que às vezes eu me belisco pra ver se é de verdade, e várias vezes ao dia eu fico esperando vir alguma coisa que estrague tudo, porque tá bom demais pra ser verdade. Me preparando pro pior, pro fim, pro final infeliz.

Eu sei, eu sei... eu sou a doente dessa história. Ôrra, eu sempre soube! A paranóica, a pessimista, a traumatizada, complexada. Aquela que tomou chifre demais e foi enganada DEMAIS pra conseguir se relacionar de uma forma saudável, aquela que um belo dia parou e aí ficou só observando... e viu que em toda a sua volta todo mundo só fazia sofrer, se machucar, se apoiar em relacionamentos falidos e doentios. Aquela que por fim desistiu, e resolveu se relacionar só na superfície e não se envolver de verdade nunca. Já tem alguns anos que eu sou essa pessoa, babe... você é que não sabe disso ainda.

Eu hoje escrevo e transbordo e entorno o copo cheio demais de sentimento, e falo tudo de você e publico pra ver se passa. E coloco essa foto aqui pra saber que ela tá exposta em algum outro lugar, e não necessariamente no meu fundo de tela mais. Já posso tirá-la de lá, não preciso mais ficar olhando pro seu pescoço e suas pintas tão minhas, já posso retornar ao equilíbrio, ao mundo real, a um estado mínimo de racionalismo e frieza (nossa, era tão fácil atingi-lo antes). Agora tá tudo aí, solto no mundo, e eu já posso respirar em paz.

Já vai, já vai passar. Tomara.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Naturally



Existe um clichê que tem me perseguido. O do primeiro beijo. Essa historinha de comédia romântica de que “o primeiro beijo te diz tudo que você precisa saber sobre a relação”, essa mitificação do momento, essa pira toda aí. Toda vez que o assunto me aparecia pela frente eu pensava a mesma coisa: “tem tanto tempo que eu nem presto atenção no primeiro beijo”. Beijo e pronto, beijo e nem fico analisando nada, no fim da noite é que eu vou saber se o cara valeu a pena ou não. Mas não pela qualidade desse, do primeiro beijo, do “momento histórico”. Por tudo. Já a alguns anos pra mim o primeiro beijo com alguém não era... quase nada. But then again, já há algum tempo que pra mim eles todos são... quase nada.

Hoje, quando você olhou no meu olho e veio me beijar pela primeira vez, eu pensei: o primeiro beijo. E foi só isso que deu tempo de pensar, e a gente tava se beijando. E dessa vez eu tava ali, 100% presente, como não acontecia a tanto tempo. Adeus mundo lá fora, e tudo era o beijo. E foi tão bom, e quando me soltou foi a primeira (na verdade, a segunda) coisa que você disse, do jeito mais espontâneo do mundo, de um jeito que não me deixou dúvida nenhuma de que você nem tava fazendo fita... você tava dizendo o que pensava e só. E eu me lembrei que a última vez que um cara me beijou pela primeira vez e me disse do jeito mais espontâneo e efusivo do mundo que meu beijo era muito bom... era 2004, e ele foi a maior e mais arrebatadora paixão da minha vida.

E me deu uma coisa boa por dentro. Porque eu te desejei por algum tempo antes de ficar com você, e foram pelo menos 2 desencontros antes que a gente conseguisse se encontrar (talvez só pra permitir que a minha vontade aumentasse) e também tinha algum tempo que isso não acontecia. Porque eu estava bem sã, e porque eu estava de tênis, calça jeans e moletom. Porque eu não fiz nem uma única pose ao longo da noite, nem me fiz de meiga, de sexy, de inocente, de experiente, de nada. Porque eu falei da minha família e você falou da sua, coisas boas e ruins, vergonhosas ou não, porque você me mostrou as fotos do aniversário de 85 anos da sua avó, perguntou da minha irmã e dos meus pais, perguntou se podia tirar uma foto nossa sem nem cogitar a possibilidade de eu achar aquilo estranho. E porque eu falei dos seus amigos beldades/comedores sem meias palavras e sem me fazer de inocente, e você concordou com tudo sem fingir por 1 minuto sequer que “aaah, não é nada disso”. Porque éramos só nós dois e, apesar de eu amar minhas amigas além da vida e ter falado disso e delas a noite toda, você pôde me ver do jeito mais natural e mais simples, porque era só eu. Porque tudo, tudo isso, não acontecia a algum tempo.

Me deu “um bom” porque eu te achei mesmo o cara transparente que você disse ser, e porque eu me senti também tão transparente e me lembrei de como essa sensação é boa, e porque eu tive um real e quase palpável ALÍVIO quando você falou “ah, porque eu sou transparente, eu falo mesmo, quando eu gosto eu falo e quando eu não gostar de alguma coisa você vai saber”. Tanto alívio que meia hora depois eu já tava te dizendo:

- Quando um cara te liga às 2 da manhã, não tem desculpa não. Não é “mania
dele”, não é coincidência, não é nada. É porque ele quer bombom, e pronto. Por
isso eu fiquei possuída pelo demônio quando você disse ‘não vou poder ir aí no
bar, mas me liga quando estiver saindo e vamos ver se a gente faz alguma coisa’.



E porque aí você riu, de verdade e com gosto, e me beijou como se dissesse: ela é diferente e eu gosto disso.

Eu agora encho mais de uma folha no Word falando de você, e tenho medo de estar pirando sozinha. De esse ser o único texto a seu respeito porque essa historinha já acaba aqui, ou de você foder com tudo por uma razão idiota, como eles tooodos fazem. Mas pra quebrar mais um dos meus padrões, eu vou brincar de ser otimista dessa vez. See you on Friday, babe.