Hoje a gente brigou. Nós duas, uma com a outra, como quase nunca acontece. Dessa vez você não brigou comigo, como na esmagadora maioria das vezes eu permito que seja. Eu falei, mas ainda falei tão pouco, e ainda fui tão equilibrada e contida. E ainda ponderei tanto.
É claro que eu não esperei que fosse dar em alguma coisa. É óbvio que não esperei um final diferente do que foi, você falando tudo que queria e se utilizando das mesmas ofensas de sempre (tão gastas e repetidas) pra depois desligar o telefone na minha cara. Eu já perdi as contas, mãe. De quantas vezes você já gritou e me chamou de “filha ingrata”, de “a pessoa
mais egoísta que eu já vi”, de alienada, de invejosa, de fraca. Eu já me cansei de ficar indignada com o sonho em que você vive, com a sua convicção ao falar dos seus direitos, do seu dinheiro (como se você não tivesse parado quase que completamente de trabalhar e produzir a mais de 5 anos), da sua capacidade, da sua infalibilidade. Já me cansei de imaginar se você realmente pensa que seu ex-marido faz questão te bancar pro resto da vida independente do número de uniões estáveis que você tenha depois dele, já me cansei de imaginar se um dia você vai andar com as suas próprias pernas, já me cansei, já tô tão exausta, de todas as vezes em que você vem e constrói esse personagem de guerreira, de mulher independente que criou as filhas sozinha e saiu lá do interior de Minas Gerais, e veio sozinha no mundo contra tudo e contra todos, e agora nós estamos aqui, em Curitiba, graças aos seus imensos esforços. Como se a história fosse mesmo assim.Como se eu não tivesse que controlar sempre todo o dinheiro pra você não gastá-lo em qualquer coisa, como se você soubesse administrar qualquer coisa, como se eu não segurasse todas as pontas e pagasse todas as contas, como se eu não aturasse a tanto tempo o seu transtorno bipolar mal e porcamente tratado, que você não aceita e não assume. Como se eu não te levasse nas minhas costas por tantas vezes, como se os nossos papéis não fossem completamente invertidos. Por tantos anos já.
Mas hoje quando você falava que o seu vestido pra minha formatura vai custar o quanto você quiser que ele custe, quando você falava “eu é que sei a luta que foi formar uma filha em direito com tudo que eu passei”, quando você vinha me esfregar na cara que aturou as minhas depressões e crises existenciais, que você me tratou e me curou e me criou, que você fez e aconteceu... e que se eu não me acho digna e não me permito gastar e me vestir de acordo... foi demais. Peraí, mas quem é que tá se formando mesmo???? Ah, achei que fosse eu, achei que o mérito era, ao menos 50%, MEU. Desculpa, acho que me confundi.
E quando falei, da forma mais esforçadamente apaziguadora do mundo, que não queria discussão, que eu só tava me posicionando pra conversa não ficar tão unilateral, eu quis rir do seu surto e dos seus gritos de que eu estava copiando as suas palavras, assim como eu sempre te copiei em tudo. Ops, então agora eu não posso mais falar “unilateral”? Ok, vou anotar aqui, essa palavra é sua.
Talvez eu devesse ter tão mais paciência e amor pra te dar, mãe. Talvez eu devesse compreender, a todo o tempo, que o que você tem é patológico, que é a bipolaridade falando, que eu não posso ser intolerante e irônica assim. Mas eu é que sei o quanto já me exauri. Eu é que sei como todos os dias são difíceis, como nos últimos tempos eu nem sei dizer qual dos seus pólos me incomoda mais. Porque eu já não sei te amar nem na sua euforia.
Outro dia a gente almoçava junto, e estávamos bem, e você se esforçava pra gente ficar bem, pra me conquistar, pra melhorar o nosso relacionamento. Como, eu reconheço, você tem feito tanto nos últimos tempos. E o seu esforço me sufocava, a sua presença, por si só, me doía por dentro, e a minha incapacidade de te tolerar me enchia os olhos d’água e o peito de dor. A sua insistência em falar por horas a fio do que só te dizia respeito, de ignorar o resto, de fazer planos mirabolantes e esperar receptividade, credulidade e empolgação de todos os interlocutores... tudo. Naquele dia eu saí quase que fugida do restaurante, de mãos apertadas dentro dos bolsos, chorando a perda total da minha capacidade de te amar. Chorando o desgaste completo dessa nossa relação que me impede de passar por cima das mágoas e cicatrizes, das feridas ainda abertas, e te amar incondicionalmente. Eu já nem sei mais se existe amor incondicional em algum lugar. Eu sei que em mim ele não está.
Toda vez em que me pego desejando ter tido uma história diferente, eu me obrigo a relembrar que foi tudo isso, essa história torta, por tantas vezes novela mexicana, que me trouxe até aqui, que me fez o que eu sou. E às vezes eu ainda tenho algum orgulho e alguma admiração pelo que eu me tornei no meio desses maremotos todos. O fato é que, algumas vezes, é inevitável não desejar. Não querer ter tido uma mãe como a das minhas amigas, uma família estruturada, uma vida mais simples. Não querer ter tido menos responsabilidades, mais conforto, Nem que isso me custasse um pouco dessa liberdade, dessa autonomia. Mas que me trouxesse um pouco de paz, um pouco menos de peso, e até uma vida mais padrão. Às vezes, (mas só às vezes), eu penso que não me importaria em ser um pouco mais comum, um pouco menos madura, um pouco menos independente e auto-suficiente... só pra sentir um pouco menos de dor.

No início era tudo tão simples, tão natural. Você era só mais um cara e eu podia ser exatamente eu mesma, porque se você não gostasse o problema era só seu. Hoje não. Agora que você ganhou importância eu já não posso me dar ao luxo de não te conquistar, não posso admitir tão facilmente a possibilidade de você não gostar de mim, de você por de alguma forma e por alguma razão não me querer mais. E aí eu jogo. E analiso se posso ligar, se devo mandar email, se falo, se calo, se mostro, se escondo, se dou, se seguro. Analiso, analiso, analiso. E ainda me pergunto se vale a pena, se gosto o suficiente, se falta algo. Eu dispenso 2 caras em 2 dias porque eles não são você, e ainda me pergunto se gosto de você o suficiente.
Acho que uma parte de mim sempre soube que essa maldita viagem ia mudar as coisas. Ia matar um pouquinho desse nosso amor tão novo e tão pequeno ainda, dessa nossa paixãozinha prematura, tão frágil, na incubadora, respirando por aparelhos. Dessa nossa relação que não é relacionamento ainda, mas que se não fosse essa festa e os seus instintos masculinos de solteirice subitamente reacendidos... certamente que era uma questão de tempo.