quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Encontros e Despedidas I



Conservavam a tradição de uma longa conversa por ano. Geralmente era a única que tinham. Na verdade ela tinha a tradição de ligar na noite do aniversário dele, não importando onde estavam, se ele tinha ligado no dela, se algum dos dois estava namorando. Ele sempre estava. Ela nunca.

Ela sempre tinha medo de que neste ano não tivessem assunto. Sempre pensava que “nossa, esse ano tanta coisa mudou, acho que não vamos mais ter do que falar... acho que o vínculo se perdeu”. Todo ano ela ficava se enrolando até o fim da noite em receio, às vezes alguma preguiça, algum aperto no estômago. Toda vez sentia um misto de medo e vontade que ele não atendesse.

Ele sempre atendia. O aniversário não era completo se ela não ligasse, e apesar de não ter direito a cobranças, ele sempre passava o dia esperando e se preparando pra ligação anual dela. Sempre se livrava de quem estivesse por perto, sempre se deitava no quarto, ou se sentava na calçada vazia, ou se apoiava na janela da sala. Sempre sozinho.

- Eu vi o DDD e sabia que era você. – ele sempre dizia.
- Claro, você conhece mais alguém que more aqui?
- Pensei que você não fosse ligar, depois que...
- Que você não ligou no meu? Eu sou superior a isso.
Ele sorria. Ela era mesmo, sempre.
- Mas você sabe que eu lembrei né? Você sabe que é impossível não lembrar, não sabe?
- É?
- Claro que é. O seu dia é.... o seu dia.

Ela sempre tinha medo de que dessa vez ele soltasse: “então... eu vou me casar”, ou “dessa vez é sério”, ou algo do gênero. E embora ele tenha dito coisas parecidas, algumas vezes, ela soube, em cada uma delas, que era só ele sendo aquele eterno apaixonado e sempre incapaz de ficar sozinho, mas que ia passar. Mas ainda assim, ela sempre temia que dessa vez, entre namoricos e traições constantes, entre reclamações e frustrações padrões, ele decidisse que a menininha da vez era a escolhida, ou que já era hora.

Ele tinha medo que ela dissesse simplesmente: “tô namorando”. Em todos os anos, essa era a pergunta que ele nunca fazia. Sim, porque ele ainda poderia ter um zilhão de namoradinhas e casinhos antes de “se fixar”, mas ela não. Ela era madura e dedicada demais, e auto-suficiente demais pra ter relacionamentos casuais e sem importância. Ela não precisava. Ela era mulher e forte demais, e já o era aos 15 anos, de modo que ele só podia imaginar o que teria se tornado em oito anos de estudo, independência, desestrutura familiar, capitais, vida no exterior. Ele sabia que uma vez que ela contasse que tinha alguém, era questão de tempo até que ele o convite do casamento chegasse pelo correio. As amigas dela costumavam dizer o mesmo. Ele sabia que era uma questão de tempo antes que um cara qualquer, bom ou mau, mas nunca bom o suficiente, percebesse a raridade que ela era, passasse por cima do medo de ter uma mulher tão grande, e a roubasse pra si. E ele sabia que ela já se achava um pouco velha, que ela já devia procurar, de verdade, alguém pra vida toda. Não como toda menina adolescente sonha, mas como toda mulher busca. Ele sabia, tinha certeza, que o dia se aproximava. E não podia deixar de temer.

De todo modo, ela nunca deixara de ligar, e eles nunca ficaram sem assunto. Em todos os anos, em qualquer lugar, por mais que pudessem ter pensado, questionado ou duvidado, no primeiro minuto era como se nunca tivesse existido distância. Ele estranhava e ria um pouco do sotaque dela, que logo se mesclava ao dele, ela estranhava um pouco a voz, que a princípio parecia um pouco mais grossa, mas em alguns segundos, antes que ela pudesse começar a se preocupar com os danos do cigarro às cordas vocais dele, voltava a ser a mesma de sempre. Ele falava de pessoas do passado que ela demorava um pouco pra identificar, ela se lembrava subitamente de coisas muito antigas e ele acrescentava detalhes como se tudo tivesse acontecido a duas semanas. Ela pegava um papel pra anotar os filmes que ele tinha pra indicar, ele tentava decorar os livros que ela afirmava com toda certeza: “desse você vai gostar, prometo”. E riam dos outros e de si mesmos, e falavam do quanto a vida fora simples naqueles dias, tempos atrás, e do quanto não tinham preocupações e deveres, de como tinham sido felizes e mal sabiam. Ele falava por algum tempo, a cada ano, de como a família dela tinha sido importante. De como ele nunca mais se sentira tão confortável com uma sogra, uma cunhada, um cachorro. Ela sorria, sabendo que não tinha com quem compará-lo. Nestes momentos, e só nestes, a constatação vinha sem a dor.

Ela aprendera a ser sozinha, ele aprendera a não ser. Ela sempre perguntava se ele não tinha medo de não saber ficar de pé sozinho, de não conseguir caminhar com suas pernas sem muletas. Ela aprendera a associar relacionamentos a muletas. Ele respondia que só fica sozinho quem quer, ela não conseguia imaginar de onde ele tinha tirado aquela idéia. Uma vez ele até falou das barreiras que as pessoas criam pra não se envolverem, mas parou logo. Tinha medo que ela aprendesse e se livrasse da sua. E deixasse alguém entrar. E esquecesse.

Todo ano eles se despediam prometendo se falarem mais, se escreverem, se encontrarem. Sabendo que era tudo mentira. E se despediam prometendo que não se esqueceriam, não se apagariam, não se perderiam. Sabendo que era tudo verdade.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Minha loira

Eu acabei de ver aquele episódio de Grey’s que é a última parte de 3, que vocês disseram que choraram um monte... e eu não chorei, nem com o menininho, nem com o serial killer, nem com a Izzie. O que me tocou mesmo,e encheu o meu olho d’água... foi o McDreamy enfiar a Meredith chorando desesperada no carro e ir atrás da Christina, mesmo sabendo que elas estavam brigadas e tudo. Porque só ela ia entender, só ela ia dar jeito, só ela podia ajudar.

E aí eu pensei que isso é tão a gente, e que além daquele nosso combinado de “toma aqui a minha senha do Orkut, se eu morrer corre lá e apaga meu perfil antes que comecem a mandar mensagens póstumas”, a gente podia estabelecer mais isso, né? Que nossos presentes, passados e futuros McWhatever, sejam eles quem for, já fiquem avisados de que, “em caso de defeito ou pane no sistema, tratar diretamente com a parte competente”. Que o seu te traga correndo pra minha casa e vice-versa. Porque sempre vai existir aquela hora em que só a outra vai entender, em que só a outra vai saber, e vai chorar junto, e vai esvaziar uma garrafa ou dançar que nem louca pra extravasar. E porque a competência de tributar é exclusiva da União, honey. Christina Yang e Meredith Grey, Marissa Cooper e Summer Roberts e eu até diria Serena Von der Woodsen e Blair Waldorf, mas não sei se essas loucas continuam amigas ou se surtaram de novo.


Enfim, my point is: YOU ARE MY PERSON. Do início até o fim, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza (mesmo pq o Dono da Festa há de ter acabado com o período da pobreza, né possível). Pro que der e vier. “Se você quiser e vier pro que der e vier comigo”. E eu falo muito muito sério quando te afirmo que isso independe de amores, romances, matches, assistências técnicas, paixonites ou apenas distrações. Além da vida, neném. Além da vida. O nosso coração é asa!


Te amo mesmo e sempre.



ps: eu fui procurar uma foto pra ilustrar isso aqui, e revirei todos os meus arquivos atrás de alguma que fosse bonita, que tivesse significado e que, o mais importante talvez, não nos identificasse muito. E achei duas, e quando abri as duas pra escolher... eu não pude escolher. As duas têm história demais, e histórias que se relacionam de um jeito tão estranho e TÃO forte


1- o melhor dia seguinte da história dos dias seguintes. A melhor das viagens, a maior e melhor das loucuras, a maior das descobertas. "De repente 30", McLovers, "BC é vida". Nós, fazendo história.












2- pra mim, o início. Fantasiado de impulso e de loucura, como quase sempre é na nossa história. E formado por você, "graças a você" e ao SEU "re-início", reencontro, suas idas e vindas, sua história sem fim. Você lá no meu início, e você também "reiniciando", McPrinceCharming e McJoint, os melhores amigos e as melhores amigas??? Quem sabe? ;)

Nós, fazendo história. Sempre

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

As 3 palavrinhas

- E ele te chama de amor? Já tá nesse nível, de “amor da minha vida”?
- Não... Mas eu sufoco pelo menos uns três “eu te amo” por dia.
- Como assim???
- Ah, eu quase falo o tempo todo e aí engulo na última hora. Várias vezes, todo dia.

E eles fizeram um silêncio de choque, all eyes on me, arregalados, mal podendo crer no que eu tinha falado. E eu que falei tão normalmente! Até que todos disseram juntos:

- Aaaaah, que coisa linda! Gente, vocês acreditam nisso??? O coração de gelo!! O iceberg derreteu!
- Ah, mas é que “eu te adoro” é tão estranho, não se encaixa mais há tanto tempo!... É difícil ouvir “mulher da minha vida” ou “você é a pessoa que eu procurava” e responder qualquer coisa que não seja “eu te amo”. Não é que eu tenha pensado e analisado e chegado à conclusão de que eu realmente o amo, mas é que... é natural, é o meu instinto mesmo.
- Vem de dentro, né... Mas é assim que é pra ser!! Nossa, gente... ela tá amando de verdade.

Eu já tinha me acostumado a engolir as palavras. Fosse olhando nos seus olhos, fosse terminando um email, no final de uma ligação. Eu já achava normal segurar os meus instintos pra não te dizer o que teima tanto em sair da minha boca, o que me é tão natural, tão simples. Tão pequeno e tão grande. Eu já tinha me acostumado e ontem com o espanto deles eu tive que fazer contato.
São só 3 palavras. As mais repetidas ao redor do mundo, as mais banalizadas da história. A base pros melhores e piores poemas, pras mais lindas e mais ridículas declarações. Ele, o “eu te amo”. Tão banal, tão ordinário, e nesse momento, pra mim, such a big deal. Eu me segurando, eu mordendo os lábios pra segurar as palavras, eu sem conseguir pensar e sabendo: não é de se pensar. Não é de racionalizar, de fazer lista, de questionar. Não é a dúvida do “será que eu amo mesmo?” que me congela a fala. É a dúvida do “será que é a hora?”. Sabe, eu olho pra gente, pra essa nossa ânsia, pra essa nossa vontade incontrolável de se afogar um no outro, de beber no gargalo, de nos absorvermos por completo... eu vejo essa nossa volúpia e essa saudade que nos chega nos 2 minutos seguintes a cada despedida, que nos habita em cada uma das horas do dia que passamos separados... e tenho tanta vontade de que não acabe nunca. E tenho tanto medo de falar, de colocar em palavras e banalizar esse sentimento que agora é tão grande, que agora sufoca, que transborda e não permite disfarce. “E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei”
E eu sei, a gente sabe... um dia isso passa. E quanto mais se gasta mais rápido passa, e quanto antes se banaliza menos a mágica dura. E falar banaliza. E depois das, digamos, 10 primeiras vezes, o “eu te amo” não tem mais sentido nem força. Vira “pão com manteiga”. E agora, neste momento agora, neste tempo em que tudo borbulha e arde e rescende e dói, em cada uma das vezes que eu mordo os lábios pra não dizer as tais palavras ou seguro os dedos pra não digitá-las, eu sinto a força delas. Eu sinto pulsar, vibrar no meu peito, como uma chamada no celular pela qual se esperou muito. Iuuuuhu!... Somebody’s calling! I hope i’ts Mickey!....

Mas o fato é que sim: eu te amo, eu te amo, eu te amo. Pronto, falei.

terça-feira, janeiro 27, 2009

So very lost

É engraçado como uma palavra muda as coisas. Como o simples “tornar oficial” tem um efeito tão profundo. Não devia. Preferia que não fosse tão notório, tão súbito, tão... intenso.

As fotos no meu mural não são mais as mesmas. Eu não sou aquela das fotos antigas, e por isso me parece tão estranho deixá-las ali. Eu olho as novas e a todo tempo conto de novo pra parte de mim que teima em estranhar tudo isso: aquele ali é o meu namorado. E essa frase não consegue me soar natural ainda.

Eu disse ali atrás que não tenho mais medo?? Mentira. Eu ainda tenho medo. De abandonar aos poucos o que me sustentou por todo esse tempo, os que me eram os mais importantes, o que me era mais caro. Tenho medo de mudar demais e deixar pra trás coisas e pessoas que não deviam ou mereciam ficar pra trás. Tenho medo de me abandonar pelo caminho, de ficar eu pra trás, de me acomodar. De enfraquecer. Quando eu falava que relacionamentos se tornam muletas, não era recalque. Era sofrimento antecipado (assim como esse aqui). Eu acho que sempre vou sofrer por antecipação. Hoje eu sofro pelo dia em que ele não vai mais conseguir/querer dispensar os esquemas antigos e as velhas barangas que correm atrás sem medo do ridículo, eu hoje já pressinto e temo o dia em que as coisas ficarem mornas e não for mais suficiente... Porque eu sei o quanto a monogamia me é inerente e natural, eu confio em mim, de olhos fechados. Mas em mais ninguém.

Se me contassem lá atrás eu não acreditaria. Se me dissessem lá no início que a gente ia mergulhar assim de cabeça, que iríamos, ambos, pular de ponta nesse relacionamento, com direito a fotos românticas e “namorando” no Orkut, com churrascos de casal e imagem e ação no time das namoradas... eu provavelmente daria gargalhadas. De nervoso. Se me jurassem que eu daria pra ele um porta-retrato com uma foto nossa depois de só 3 dias de namoro, e que ele colocaria em cima da TV do quarto e mostraria pra todo mundo da casa achando lindo... eu jamais, JAMAIS acreditaria. Assim como não acreditaria na sessão de fotos com a turma, com a noiva do irmão, com os amigos todos. Eu!! A mais convicta das solteiras, a mais auto-suficiente, a mais sozinha, a mais amarga, a mais pessimista, a mais incrédula. Eu?? Pagando de namoradinha no Orkut?? Na vida??? Yeah, right. Eu ainda não posso acreditar que realmente, depois de tanto tempo, fidelidade voltou a ser uma preocupação. Eu queria tanto ser uma dessas pessoas que não se preocupam muito, que não ficam criando hipóteses, que não procuram saber, que não se estressam. Uma dessas pessoas normais.

Mas aqui estamos nós. Eu com tantas fotos no mural e tentando cuidar de mim, tentando garantir um mínimo de saúde, ele tão entregue e tão certo de tudo. Fazendo planos, acreditando em “pra sempre”. Eu perdida, absolutamente desprovida de certezas. A única que me resta é que o pra sempre sempre acaba.
Tenho deixado mil depoimentos, tenho me declarado repetidamente aos meus antigos amores, aos que me foram essenciais, aos que de alguma forma marcaram. Garantindo pra cada um deles que o lugar dentro de mim vai permanecer guardado. Como se tudo fosse mudar, como se o mundo estivesse acabando. Como se fosse uma questão de tempo só, e daqui a pouco fosse tarde demais pra agradecer, pra declarar, pra conviver. A verdade é que eu sempre temi o poder que um relacionamento tem. De limitar, de restringir, de alienar. Eu sempre achei que não basta dizer “eu nunca vou fazer aquilo de novo”, que sempre existe um risco, tão real e tão iminente, de cometer os mesmos erros. Por pura cegueira, pela simples burrice que a paixão causa mesmo, e não tem jeito. Eu nunca confiei que não fosse emburrecer de novo.

O que me parece às vezes é que dei um passo maior que as pernas, que dessa vez inventei bem demais esse amor, e me distraí em excesso. Será que tem volta? Será que eu quero voltar? É um tempo novo demais e já o era antes de inventarmos moda, antes de querermos inovar.
Me lembro de gritar com as meninas aos sete ventos, na virada do ano, prometendo fazer diferente em todos os sentidos. Dois mil e nove! Inove!
Acho que levei a sério demais a proposta.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Committed



Eu tinha regras. Muitas. Rígidas. Eu tinha limites intransponíveis. Eu tinha teorias quase absolutas. Eu tinha convicções e definições que não podiam ser abandonadas. E nem eu queria que fossem. Eu determinei, há tanto tempo, que certas coisas eram inaceitáveis, que certos defeitos eram eternos, que certos erros eram irreparáveis. Quando os meus amigos tratavam como uma fase o que pra mim era um indiscutível fim, eu não conseguia entender a cabeça de todo mundo. “Gente, vocês não tão entendendo... ACABOU!”. E eles me pareciam tão irritantemente confiantes em afirmar que não era bem assim.

Era assim. Dentro de mim era mesmo definitivo, determinado, absoluto. Dentro de mim não tinha mais jeito, não tinha mais volta. Sem mágoa, sem desespero. Apenas não tinha volta.

E aí eu te vi de novo. Cedo demais, perto demais, disposto demais. “Eu só quero saber se eu ainda tenho alguma chance com você, algum dia.” E me doía a súbita vontade de te apertar a mão, de te olhar nos olhos, de te apertar contra o meu peito. Me doía a sua presença, a sua existência, pura e simplesmente. Até que eu repeti o papel ridículo da minha mãe e fui lá pra fora chorar. Como eu nunca faço, como eu já nem sabia que conseguia fazer. E eu soluçava sendo obrigada a admitir que não era tão fácil, que você ainda estava dentro de mim, que passar tantas horas olhando aquelas fotos não tinha sido o suficiente pra te deletar daqui de dentro.

E aí você veio me abraçar e me consolar e me garantir que não ia doer mais, e eu vi. Vi nos seus olhos que alguma coisa tinha mesmo mudado, ouvi nas suas palavras que a sinceridade a toda prova continuava presente, ainda maior, ainda mais pura. E naquele momento eu soube até que o resto do mundo nunca entenderia, e que pela primeira vez, eu não me importava. Que tivesse sido muito rápido, que eu tivesse sido muito fraca, que tivesse cedido e acreditado cedo demais. Quem ama e prima pela verdade como eu, sabe reconhecê-la. Ainda mais olhando nos olhos. Ela estava ali, a verdade. Em você. E eu soube que depois de tanto tempo procurando e esperando, talvez eu finalmente tivesse achado algo real.

Depois veio o medo. No dia seguinte, e no outro, e nas vezes em que eu abri de novo aquelas fotos procurando que a dor fosse forte o suficiente pra me fazer desistir, e ela nunca era. Veio o medo, acredito que o resto dele, ainda acumulado nos meus cantos e esquinas, tão alimentado por tanto tempo, tão infiltrado em cada célula minha. E pelo momento histórico, pela avalanche de acontecimentos, pela overdose de emoções, eu tive que calar. Todas as minhas vozes e ânsias, todas as minhas dúvidas e temores. Que esperassem mais um pouco, porque o resto das programações não podia esperar.

Até que eu compreendi que eu devia isso a mim mesma. Uma chance de tentar, de confiar e me envolver de novo, uma chance pra crescer com alguém e não mais sozinha. Uma chance, uma porta aberta pra vida entrar. Ser dura é diferente de ser forte, ser fria é diferente de ser adulta. Eu merecia uma história nova, eu precisava de uma história bonita. Eu devia a mim mesma e a todas as minhas cicatrizes uma chance pra construí-la. “Saber amar é saber deixar alguém te amar.”

Eu não sei bem quando foi que me rendi. Não sei qual das suas palavras, qual dos seus olhares, qual dos seus gestos me fez parar de resistir e despir de vez a armadura. Acho que foram todos, juntos. A decisão de me incluir de vez na sua vida e na sua família, o jeito firme e decidido com que você entrou na minha. Com todos os meus problemas e turbilhões, lá no meio deles. Abraçando a causa, fazendo o lanche, segurando a barra, corrigindo a prova. Eu me preocupava em não te envolver demais na loucura, com medo de você querer correr quando visse de perto o drama mexicano que é a minha história. E você já tava lá dentro, e já fazia tanta questão de estar, e já me garantia que sempre estaria, mesmo se eu não quisesse ou pedisse. E quando olhei pra mim eu vi que no meio de tanta coisa e tanto problema, eu ainda conseguia estar feliz. Mais: eu mal conseguia parar de sorrir. E era você. Porto seguro, muro de sustentação, bote salva-vidas. Era você, só você no meio de tanta loucura e tanta dor e tanto breu. Era só você e já era suficiente: eu não estava mais no escuro.

“- Promete que amanhã eu não vou ter que dividir a sua atenção? Que você vai ser só minha?
- Eu já sou só sua há muito tempo, Leonardo. Só você não percebeu isso ainda.”

Eu não tenho mais medo da palavra, meu bem. Pelo contrário. A cada minuto que passa eu me sinto mais segura e mais completa nesse lugar.

Da sua namorada.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

A foto

Eu estou bem. Razoavelmente equilibrada, razoavelmente calma, razoavelmente em paz. Talvez ainda em choque, mas... sem muita dor, sem muita tristeza. Até com um certo alívio!
Eu já ri de nervoso, sozinha na minha mesa, tantas vezes ao longo do dia. É que no fundo esse negócio é engraçado, vai!... Eu que sempre fui tão preocupada com a justiça, tão em prol da verdade e das provas irrefutáveis, eu que tanto pedi pros amigos não me deixarem fazer papel de otária de novo, eu que praticamente fundei uma ONG em prol das mulheres traídas, com o objetivo de provar, de forma inconteste, pra cada uma das iludidas que eu via pelo mundo, que “sim, ele estava com outra!”... Eu que nem sei quantas vezes disse: “gente, pelo amor de Deus, tira foto! Viu o namorado de alguém com outra? Tira foto! Viu saindo do motel? Tira foto! Se for pra descobrir traição eu acho que deve ser sempre com foto!”. Eu, essa pessoa de todas as frases anteriores... tô aqui, com a foto aberta. Ele, uma qualquer, um beijo. Ele se inclinando na direção dela, ele meio rindo, ele fazendo uma cara que eu conheço tão bem. É ele, é tão ele... é a cara que eu vejo ele fazer todo dia, é uma pose tão dele, um sorrisinho safado tão dele, uma roupa dele, o cabelo dele. É uma foto tão familiar, e a diferença única é que ela não sou eu. Jogo do 1 erro. E tudo isso é, eu juro que é, estranhamente engraçado.
E é tão estranho ver o quanto não dói mais. Não daquele jeito, não aquele aperto e aquela dor física, não mais... não mais o World Trade Center desabando dentro de mim, mas só... um final inesperado. Um filme que acabou quando não se esperava, mas... fazer o quê? Mudar de canal, ejetar o DVD, desligar a TV. Mais nada.E tem sensações boas, estranhamente. Tem um alívio de saber que acabou a vulnerabilidade, acabou a entrega, acabou a fraqueza. Tem um conforto de não ter que tomar uma decisão, não ter que fazer uma escolha, não ter que analisar mais se tá valendo a pena, até quando vai valer a pena. Ele me poupou dessa decisão. Ele decidiu por mim, ele foi lá e fez talvez a única coisa que me faria... desistir sem questionar. Acabar tudo e ponto, sem dúvidas, sem “ah, mas será que justifica?”, sem "ah, mas todo mundo erra e todo mundo muda". Não, isso não muda. Esse sorriso não me permite nenhum tipo de questionamento ou fraqueza. Pelo contrário: ele me prova o quanto não dá mais.Mas o segundo tipo de alívio é ainda melhor e mais forte. Vem da certeza absoluta, da prova inconteste, de não ter que sentir de novo aquele desespero de "pelo amor de Deus confessa... ou pelo amor de Deus, alguém que tenha visto me confirma??". Eu não tenho que questionar nada: intensidade, importância, verossimilhança... Tá tudo ali! O conjunto probatório completo! Já dá pra julgar! É o "uma imagem vale mais que mil palavras" aplicado COM PERFEIÇÃO ao caso concreto.E em alguns momentos, só em alguns momentos... dói. E eu devo ser masoquista pra caramba, porque fico passando de uma foto pra outra reconhecendo os trejeitos dele e vendo a falta de vergonha na cara estampada nesse sorrisinho. Matando-o dentro de mim, lentamente.Eu poderia escrever um livro inteiro só sobre isso, “a riquíssima experiência de ver uma foto do seu pega/ficante/namorado/noivo/marido com outra”.
Originalmente escrito em 05/01/09 (sim, faz diferença).

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Graduation



Eu não tenho, na mesma medida que as outras pessoas, esses sentimentos todos em relação à formatura. Esse orgulho, essa coisa de “oh, que grande conquista”, de “oh, é o fim de um tempo” e afins...

Não é que tenha sido fácil. Mas é que o difícil poucas vezes foi a faculdade em si, o Direito, as provas, os conteúdos... Fora alguns momentos da monografia, algumas noites viradas estudando direitos fundamentais ou os cálculos de direito do trabalho (e essas coisas viram história do passado tão rápido), nada foi realmente um grande desafio, uma grande dificuldade... Difícil foi a vida. Ou como a minha mãe gosta de dizer “a escola da vida”. E essa não vai ficar mais fácil só porque a faculdade acabou. Pelo contrário.

Talvez seja por isso que eu não consiga me achar tão competente e merecedora como o resto tende a achar. Por ter total consciência do quanto eu estou longe de ser a pessoa que um dia eu quero ser. E por (profissionalmente falando) eu ter tão poucas certezas acerca da pessoa que eu quero ser.

Acho que no futuro eu vou olhar pra essa semana com saudade e nostalgia, pensando que eu não podia imaginar a importância dessas datas na minha história... quem sabe. Por enquanto eu fico meio sem entender, em alguns momentos, porque tanta comemoração. É óbvio que eventualmente eu terminaria a faculdade, ora!

Na verdade é o fim de um tempo. A PUC era a nossa casa, era parte tão fundamental da gente... da história. Eu me lembro do início, de querer mostrá-la pras pessoas, de querer fotos, de achar tudo lindo. Eu me lembro de morar em BH ainda e ver “o mapa” do campus no site e dizer “meu Deus, que coisa linda... é ali que eu quero estudar”. Depois a gente se acostuma né... Eu não cantei a capella na concha acústica, embora tenha tido vontade de fazê-lo a cada vez que passei por ali. Eu não dormi nem assisti nenhuma missa na capela (não que eu quisesse), eu não conheci o museu.

Mas passei tardes inteiras na biblioteca (pelo menos agora no final), me deitei no sofá do térreo e fiquei vendo o sol entrar pelos vitrais, ouvi a orquestra tocar lá dentro, enquanto o pessoal estudava... Entrei pelo portal principal num sábado de manhã e fiquei olhando os estudantes de arquitetura desenharem, sentados na grama, cobertos por um sol tão bonito... E fui na clínica de fisioterapia curar um torcicolo, cochilei nos auditórios, comi em todas as opções da praça de alimentação. Apitei nos corredores e joguei confete nos professores, algumas vezes.
Valeu. “Valeu a pena, ê ê...”

Hora de crescer? Toda hora é...